Revista do Livro da Biblioteca Nacional, ano 16, n. 51 – Machado de Assis

Autor(es): 
Diversos autores

"(...) Pouquíssimos escritores, no Brasil e no mundo, mereceram de sucessivas gerações o reconhecimento daquela ‘glória que fica, eleva, honra e consola’ referida pelo próprio Machado de Assis. Quando, porém, tudo já parecia ter sido escrito por ele, eis que surgem novas e curiosas revelações. Uma delas vem da parte de Ubiratan Machado, especialista na vida e na obra de Machado de Assis. Ubiratan afirma, em entrevista à RL, que 'Memórias póstumas de Brás Cubas' constituem, na verdade, um roman a clef. Isto é, para compor seus personagens, Machado inspirou-se em figuras reais da sua época, e com isso causou celeuma. O pesquisador chegou a essa conclusão inédita garimpando notas em velhos jornais do tempo em que o revolucionário Brás Cubas veio à luz, em 1881.

Megaexposição montada na Biblioteca Nacional, sob a curadoria do poeta e professor Marco Lucchesi, com material da guarda exclusiva da instituição – ‘Cem anos de uma cartografia inacabada’ –, também acrescentou dados novos a temas já exaustivamente explorados por outros pesquisadores ao longo do último século. Lucchesi teve a felicidade de encontrar duas fotografias até então desconhecidas de Carolina, feitas no seu tempo de juventude. Estas imagens inéditas da esposa do escritor – moça bonita, esbelta, de olhos vivos como os de Capitu – de certa forma revitalizam e rejuvenescem o próprio Machado, contradizendo o semblante austero dos seus últimos anos que decerto contribuiu para o epíteto de “Bruxo” a ele atribuído. Em vez da figura imóvel, sacralizada, do medalhão literário, podemos olhar de forma mais acurada, daqui por diante, através das fotos da consorte, para um Machado jovial e boêmio, que antes de casar gostava de farra e de belas atrizes e que finalmente encontrou a sua musa de carne e osso na pessoa da bela e também jovem Carolina.

O depoimento da escritora Irene Moutinho, que trabalha atualmente dentro da Academia Brasileira de Letras, no ambicioso projeto que vai consolidar toda a correspondência ativa e passiva de Machado de Assis, contribui, igualmente, para recompor o nosso personagem de forma mais completa e adequada. Bisneta de Rodrigo Octavio, primeiro ocupante da cadeira n. 35 da ABL, ela é a guardiã de um precioso acervo familiar que permite reconstituir, através de cartas, bilhetes, fotos e curiosidades – como, por exemplo, os cardápios dos jantares promovidos pelos primeiros acadêmicos –, os primórdios da fundação da Casa de Machado de Assis.

Os documentos que Irene guarda com o maior carinho, e sobre os quais tece comentários aqui neste número da RL, nos mostram um Machado de Assis bem diferente do homem ‘nevrótico’ e omisso em relação às grandes causas nacionais, conforme já foi descrito, equivocadamente, por alguns de seus biógrafos. Revelam, pelo contrário, o perfil de um intelectual sociável, ligado aos acontecimentos do seu tempo, e generoso o suficiente para apoiar e manter sinceras relações de amizade com escritores iniciantes, muito mais jovens do que ele, como foi o caso do próprio Rodrigo Octavio.

Acrescentamos ao material referido a republicação de artigos de notáveis intelectuais do passado – como Franklin de Oliveira e Eugênio Gomes – e também trabalhos de autores contemporâneos que exploram, nas páginas de que seguem, as inúmeras facetas do primeiro presidente da ABL. Acreditamos estar oferecendo assim ao leitor um retrato do ‘Bruxo’ que só não podemos considerar completo ante a certeza de que muita coisa ainda surgirá sobre o múltiplo e enigmático Machado de Assis nos próximos cinquenta anos.”

Benicio Medeiros

(texto da apresentação)

Neste número: Aleilton Fonseca, Alexei Bueno, Cecília Costa, Cláudio Murilo Leal, Daniela Birman, Daniela Soares Portela, Eliane da Conceição Silva, Eugênio Gomes, Francisco Antonio Doria, Franklin de Oliveira, Geraldo Carneiro, Helder Macedo, Irene Moutinho, Jair Ferreira dos Santos, Juremir Machado da Silva, Marco Lucchesi, Paulo Roberto Pereira, Sílvio Castro, Ubiratan Machado.

 

Características (título)

Ano de publicação: 
2008

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Lançada em 1956 pelo antigo Instituto Nacional do Livro, a Revista do Livro da Biblioteca Nacional contou com nomes expressivos como Carlos Drummond de Andrade, Alexandre Eulálio e Augusto Meyer e continua um importante espaço do pensamento bibliológico, biblioteconômico e bibliográfico brasileiro.