Revista do Livro da Biblioteca Nacional, ano 14, n. 45 – Guimarães Rosa

Autor(es): 
Diversos autores

“Neste número: Agnes Guimarães Rosa, Alberto Venancio Filho, Alexandre Eulálio, Almyr Gajardoni, Antonio Maura, Cláudio Murilo Leal, Deonísio da Silva, Geraldo França de Lima, Ivan Junqueira, Isabel Lustosa, José de Mello Junior, José Castello, Leonardo Fróes, Léo Schlafman, Luiz Felipe Baêta Neves, Mario Pontes, Mauro de Salles Villar, Nízia Villaça, Örjan Sjögren, Paulo Roberto Pereira, Pedro de Niemeyer Cesarino, Rafael Argulllol, Roberto Muggiati, Ronaldo Lima Lins, Silviano Sanatiago, Tomasz Barcinski, Ubiratan Machado.”

“Há pouco tempo, passou por aqui uma colega sua, uma menina lourinha, bonitinha, que ia estudar na Suíça. Depois, passaram outras, em bando, peregrinas do Ano-Santo, que vieram via-Roma. No mais, com quem eu falo de Você é com a Xizinha. Você gostaria de conhecê-la. Parece um cachorrinho, de tão afetuosa. Não gosta de ficar sozinha, acompanha a gente pela casa, e mia, chamando a todos para brincar com ela. Tem seis bolas de pingue-pongue, um ursinho de pano, uma velha chupeta, e uma pata de coelho, esta sempre renovada, no açougueiro. Pois ela gosta que se jogue longe a patinha de coelho, principalmente de modo que caia atrás do sofá, e ela corre e vai busca-la, trazendo-a na boca. Um cachorrinho!”

Quantas meninas terão tido o privilégio de receber uma carta tão bonita do pai distante? A privilegiada foi Agnes, filha de Guimarães Rosa, que a Revista do Livro entrevistou para este número. A carta lhe foi enviada em maio de 1950, quando o autor de Sagarana servia em Paris como diplomata. Doada por ela à Biblioteca Nacional, integra hoje o acervo de manuscritos da instituição.

Pode-se confirmar, nas linhas transcritas acima, não só o proverbial amor do escritor pelos bichos, mas também o seu extraordinário poder, exercido em tantas obras admiráveis, de encher de encantamento pequenos fatos do dia a dia que a outros poderiam parecer apenas corriqueiros.

Reservado, pouco afeito aos círculos literários, a vida pessoal de Rosa cerca-se de certo mistério. Daí a importância do relato de Agnes. Ela nos oferece um retrato do pai inteiramente inédito, enriquecido pelo depoimento do acadêmico Geraldo França de Lima, apontado, na sua entrevista, como o maior amigo do escritor.

Só o leitor preconceituoso estranhará a revelação feita por Agnes de que seu pai era um amante das histórias de suspense. Para se entender melhor esse tipo de preferência recomendamos, também neste número, o ensaio ‘O caso da legitimação lenta e gradual’, do jornalista e escritor Mario Pontes. Versa sobre a reabilitação, pela crítica, da chamada literatura policial ou de mistério. Tida por muitos como gênero maior, ela foi, no entanto, levada a sério por intelectuais do porte de Edmund Wilson, George Lukács, Walter Benjamin e Antonio Gramsci. Em matéria de gosto literário, portanto, Rosa estava muito bem acompanhado.

Com textos da historiadora Isabel Lustosa e do jornalista Almyr Gajardoni, a Revista do Livro destaca também nesta edição o admirável trabalho desenvolvido pela Imprensa Oficial de São Paulo, que traz à luz, em edição fac-similar, toda a coleção do Correio Braziliense, de Hipólito da Costa. Graças a um sofisticado processo de tratamento computadorizado, o primeiro jornal brasileiro, que, editado em Londres, circulou entre 1808 e 1822, chega de novo às mãos dos leitores como se tivesse saído ontem do prelo.”

Benicio Medeiros

(texto da apresentação)

Características (título)

Ano de publicação: 
2002

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Lançada em 1956 pelo antigo Instituto Nacional do Livro, a Revista do Livro da Biblioteca Nacional contou com nomes expressivos como Carlos Drummond de Andrade, Alexandre Eulálio e Augusto Meyer e continua um importante espaço do pensamento bibliológico, biblioteconômico e bibliográfico brasileiro.