Medicina teológica

Autor(es): 
Francisco de Melo Franco

Medicina theologica

Fac-símile da edição de 1794

“Francisco de Melo Franco publicou em 1794 um livro polêmico na história da medicina em língua portuguesa. O título era um programa: ‘Medicina theologica; ou Supplica humilde, feita a todos os senhores confessores, e diretores, sobre o modo de proceder com seus penitentes na emenda dos pecados, principalmente da lascívia, cólera e bebedice’. A obra tendia mais para a medicina do que para a teologia, em que pese a força do título. Afrânio Peixoto e Affonso Arinos consideravam Melo Franco – não sem uma dose de exagero – como o antecessor de Freud, em virtude de certos aspectos psicossomáticos que despontam em sua difusa medicina. O fato é que o livro provocou grande escândalo e a edição foi apreendida, sem que se descobrisse ao certo quem o escrevera. Cinco anos depois, frei Manoel de Santa Anna responde àquela obra, publicando as ‘Dissertações Theologicas Medicinaes para que não se contaminem com os abomináveis erros de um livro intitulado Medicina Thelogica cujos erros refuta nesta obra’. (...)

Dirigida aos confessores – mais como estratégia, para ocupar um espaço científico livre, além da teologia ou da medicina pura, mas entre ambas as ciências – “médicos do espírito”, Melo Franco estabelece uma relação de interdependência entre a “medicina do corpo e da alma”. A neurologia – a natureza dos nermos, sua estrutura e disposição – inaugura e promove sua concepção médico-teológica. Os nervos ‘são uns cordões que tomam a sua origem do cérebro e da medula espinhal, e se distribuem por todas as partes do corpo’. Eis o atlas a que os confessores devem ter acesso, o mapa-múndi de uma linguagem mecânica e hidrostática, tornada mais sutil à medida que as doenças da alma tornavam parte nessa geografia. Não havia como reduzir a saudade a uma deficiência mecânica ou matemática. (...)

Temos nesta obra uma rara contribuição para o debate do saber médico na passagem do século XVIII para o XIX e o lugar possível, dramático e necessários da subjetividade – como lembra Canguilhem – desafio que não cessa de crescer dentro do que se espera de uma prática médica mais atenta e sensível.”

Marco Lucchesi

Editor

Características (título)

Ano de publicação: 
2008

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