Anais da Biblioteca Nacional vol. 135 - 136 . 2015/2016

Criado em 1876 para dar ampla divulgação aos trabalhos dos funcionários da instituição sobre o seu acervo, os Anais da Biblioteca Nacional tem,  nos últimos anos, publicado cada vez mais estudos que inserem a instituição no campo da pesquisa científica, sem deixar, no entanto, de divulgar trabalhos de igual relevância nas áreas de tratamento e preservação do acervo. Estas últimas são a essência do métier biblioteconômico e, ao lado das ações de divulgação das informações que povoam o acervo, sempre constituíram as grandes missões das bibliotecas nacionais.

Conteúdo desta edição

A pesquisa interpretativa e analítica está hoje no cerne das atividades da Biblioteca Nacional, explorando e ampliando os significados culturais do universo de documentos bibliográficos por ela custodiados. Hoje, esta instituição não se satisfaz em cumprir apenas suas missões tradicionais. Firma, gradativamente, o seu desejo de, à semelhança das bibliotecas nacionais de muitos outros países, gerar saber – atividade central das sociedades de conhecimento, de acordo com os quatro fundamentos que, segundo a Unesco, as qualificam: criação, preservação, compartilhamento e aplicação de conhecimento.     

         É o que demonstram as recentes dissertações de mestrado e teses de doutorado apresentadas e aprovadas em universidades brasileiras por membros do nosso corpo técnico, as curadorias de coleções nas áreas de acervo  e também o grande número de estudos e originais de livros realizados, desde 2004, por mais de duas centenas de  pesquisadores, mestres e doutores, agraciados com bolsas dos dois programas de apoio à pesquisa conduzidos pela Biblioteca Nacional. Alguns desses estudos, conforme a disponibilidade de recursos financeiros, transformam-se em livros e muitos vêm sendo publicados neste periódico ou em revistas científicas, por iniciativa dos próprios bolsistas.

Foi este desabrochar de pesquisa e conhecimento que levou o Centro de Pesquisa e Editoração a planejar a criação de um periódico científico, que funcione não só como uma espécie de vivo repositório, na Biblioteca Nacional, de trabalhos científicos, mas também como canal de diálogo com pesquisadores de instituições nacionais e do exterior.

         A publicação neste volume das comunicações apresentadas, por pesquisadores da Casa e por bolsistas, na 2ª Jornada de Pesquisadores da Fundação Biblioteca Nacional, é uma amostra significativa da densidade e relevância desses estudos. O encontro ocorreu entre 13 e 15 de julho de 2016, tendo sido os resultados parciais apresentados em mesas temáticas: cultura e sociedade no Brasil, relações literárias e comunidades letradas, produção, circulação e recepção de cultura religiosa, história cultural e intelectual, musicologia no acervo da Biblioteca Nacional.

         Muitos leitores, por certo, já tiveram a oportunidade de admirar ex-libris, sem, no entanto, conhecer-lhe o nome. Ex-libris são aquelas pequenas e, quase sempre, belas ilustrações impressas, coladas, em geral, na primeira página dos livros de uma biblioteca particular ou de bibliotecas públicas e nacionais. Sua finalidade é identificar o titular (instituição ou pessoa) da biblioteca a que os livros pertencem. Contemporâneo ao surgimento do livro impresso, o ex-libris é considerado por especialistas uma obra de arte.

         Em “Ex-libris da Biblioteca Nacional: a marca de uma identidade”, as bibliotecárias Andréa de Souza Pinheiro e Rosângela Von Helde, ambas da equipe do Plano Nacional de Preservação de Obras Raras (PLANOR), que desde 2009 realizava pesquisas para a elaboração de um projeto sobre os ex-libris, fazem um estudo inédito sobre marcas de propriedade. O estudo abrange, além dos ex-libris, outras marcas, como carimbos e selos, tanto de coleções provenientes da Real Biblioteca portuguesa, quanto de bibliotecas incorporadas ao acervo da Biblioteca depois de sua instalação no Rio de Janeiro. Destacam-se as marcas de identidade (ex-libris e selo) criados para a Biblioteca Nacional, na administração de Manuel Cícero Peregrino da Silva (1920-1924), pelo grande pintor ítalo-brasileiro Eliseu Visconti.

Publica-se também neste número, mantendo-se a tradição fixada por Ramiz Galvão (1870-1882), ao criar os Anais em 1876, mais um cuidadoso inventário elaborado pela Divisão de Manuscritos sobre outra das coleções de documentos e arquivos particulares ali custodiadas: a Coleção Marco Lucchesi, o poeta, romancista, ensaísta e tradutor, que hoje preside a Academia Brasileira de Letras. Dedicado colaborador da Biblioteca Nacional, onde foi editor por dez anos da revista Poesia Sempre e fez a curadoria de grandiosas exposições, como as mostras “Euclides da Cunha. Uma poética do espaço brasileiro”, em 2009, e “Rio de Janeiro 450 anos. Uma história do futuro”, em 2015. Lucchesi doou à Biblioteca Nacional os documentos por ele reunidos entre 1974 e 2010: são 660 registros – correspondência recebida, originais literários, fotografias, desenhos, cadernos de anotações, folhetos, recortes de jornais, entre outros tipos de documentos – de seu percurso intelectual no período. A coleção é apresentada, em elegante texto – “Marco Lucchesi: um convite à estética do labirinto” – pela professora Anna Maria Haddad Baptista. 

Em Preciosidades do Acervo, o historiador Diego Vieira da Silva, especialista em Arte e Cultura, e que na Biblioteca Nacional exerce, por efeito de concurso, o cargo de assistente administrativo, nos oferece uma fina reflexão sobre fotogravuras publicadas, em 1878, no livro Viagem ao Egito, pelo egiptólogo francês Auguste Mariette. As fotografias que geraram as fotogravuras integraram a exposição “Uma viagem ao mundo antigo: Egito e Pompeia nas fotografias da Coleção Thereza Christina Maria”, organizada em 2018 pela Biblioteca Nacional com o acervo desta que é mais importante coleção de fotografias do mundo no século XIX.

Mariette buscava compreender aspectos daquela antiga civilização africana no momento em que, segundo Diego, a arqueologia egípcia dava seus primeiros passos. Concentrando-se em algumas fotografias referentes ao sítio arqueológico de Medinet Habu, na região de Tebas, no Alto Egito, e apoiado em textos de vários egiptólogos, nosso jovem autor faz interessante reflexão sobre os significados artísticos e funcionais de antigos monumentos egípcios.

Com este volume de dupla numeração, dada o seu grande número de matérias, aproximamo-nos da atualização, há muito perseguida, da série  Anais da Biblioteca Nacional. O número 137, correspondente ao ano de 2017, o próximo a ser publicado, já deixamos editorado e apto para ser diagramado e impresso.

Características (título)

Ano de publicação: 
2019
Versão disponível: 
digital
impressa