Maitê Proença presta homenagem a Jannice Monte-Mór

quinta-feira, 20 de agosto de 2020.
Notícia
Jannice Monte Mór, mulher de fibra, biblioteconomia, Fundação Biblioteca nacional
"Foi a maior Administradora que a Biblioteca Nacional já teve. Primeira bibliotecária a ocupar o cargo, passou oito anos comandando a gestão do maior acervo literário do Brasil. No posto de 1971 a 1979, Monte-Mór conseguiu reerguer a Biblioteca Nacional durante a ditadura militar, trazendo as inovações necessárias para que a Biblioteca Nacional se tornasse um espaço de disseminação e apreciação da cultura."

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Jannice Monte-Mór na Biblioteca Nacional
Jannice Monte-Mór na Biblioteca Nacional

Leia e veja na íntegra o video de Maitê Proença em https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=3207839092627723&id=38950052...

Gestão inovadora e eficiente é reconhecida por todos

A coordenadora de Serviços Bibliográficos da Fundação Biblioteca Nacional, Luciana Grings, em “O LEIGO E A ESPECIALISTA  -  Memórias da administração da Biblioteca Nacional nas décadas de 1960 e 1970”, originalmente tese de doutorado em Memória Social na Unirio a ser lançada brevemente pela Biblioteca Nacional, faz um estudo comparativo entre as administrações do escritor Adonias Filho (1961- 1971), o “leigo”, e da bibliotecária Jannice Monte-Mór (1971-1979), a “especialista”, primeira bibliotecária de formação a dirigir a instituição. Sua principal conclusão é que a formação do gestor não parece ter efeito prático na qualidade de sua administração, sendo aparentemente mais relevantes aspectos como a compreensão do sistema bibliotecário e patrimonial em que a Biblioteca Nacional se insere. A gestão de Jannice Monte-Mór à frente da Biblioteca Nacional foi, segundo Luciana Grings, foi significativa do ponto de vista do corporativismo bibliotecário, mas não conseguiu resolver os problemas estruturais da BN - falta de espaço, de pessoal e de verbas - porque ela não está em primeiro plano na política de memória e da cultura do país.

Jannice assumiu a direção-geral da BN em 1971, e ficou até 1979. Estudiosa das bibliotecas nacionais, contribuiu muito para afastar a crise que a instituição vinha atravessando desde, pelo menos, os anos da Era Vargas, sendo objeto até de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito). No estudo de Luciana Grings, “a direção de Jannice Monta-Mór foi por muitos considerada um dos principais marcos da história da Biblioteca Nacional: uma gestão inovadora, norteada para a reforma administrativa da Biblioteca, à luz do então novo conceito de bibliotecas nacionais, o seu papel na coletividade a que serve e, principalmente, nos sistemas de informação bibliográfica do país.

Tomou como bandeira para sua gestão a reforma administrativa da BN, a fim de melhorar processos e rotinas, otimizar recursos, identificar deficiências e posicionar a biblioteca de acordo com as exigências do perfil de biblioteca nacional proposto pela Unesco.

Ela se preocupava com a preservação e a conservação do acervo, que vinha crescendo sem muito controle. Na época, o tamanho do acervo da BN era desconhecido, tendo sido  inventariado pela última vez décadas antes. Só em 1973 ele foi atualizado: a BN guardava cerca de 3 milhões de peças. Em seu primeiro relatório, Jannice disse que “[…] parte do acervo foi encontrado em estado de verdadeira calamidade”. Diante dessa situação, conseguiu recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Econômico para tratar o acervo. Depois, conseguiu a instalação de uma pequena oficina de encadernação.

Buscando otimizar a biblioteca, a gestão assinou um convênio com a Fundação Getúlio Vargas, patrocinado pelo Ministério da Educação e foram elaborados cinco projetos: Projeto A (Organização administrativa), Projeto B (Sistema do pessoal), Projeto C (Espaço físico), Projeto D (Racionalização do trabalho) e Projeto E (Sistema de planejamento). O resultado foi uma “verdadeira radiografia da instituição, pois caracterizava nitidamente a situação real da Biblioteca Nacional […].

O Depósito Legal era outra das preocupações da bibliotecária. Sabendo que essa é, se não a maior, uma das maiores funções de uma biblioteca nacional, se esforçou para aumentar a captação de livros. Em seu primeiro ano, constatou que as editoras encaminhavam apenas 20% da produção. Dois anos depois, esse percentual aumentou, segundo ela, para 60%8.

Observando o valioso acervo de jornais antigos guardados na BN, buscou a microfilmagem como estratégia de preservação e difusão. A BN já microfilmava seus periódicos há 20 anos, mas nada comparado ao que aconteceu a partir da gestão de Jannice. Em 1973, essa ação foi impulsionada e, quatro anos depois, foi instituído o Plano Nacional de Microfilmagem de Periódicos (PLANO).

Até aí, o acervo estava sendo observado e, na medida do possível, tratado. Mas e o pessoal para fazer tudo isso? Como treiná-los para as atualizações constantes das tecnologias e práticas? Jannice percebeu isso e logo procurou mudar esse cenário. Dessa forma, foram oferecidos cursos necessários como “Panorama da moderna biblioteconomia”, “Introdução aos computadores” e “Administração geral”.

Além de ter trabalhado na BN, Jannice Monte-Mór integrou a Fundação Getúlio Vargas (FGV) e foi cedida ao governo do Estado do Rio de Janeiro para planejar a então nova Biblioteca Pública Estadual (atual Biblioteca Parque Estadual), que seria implantada nos anos 1980. Ainda foi bolsista Fulbright, da Comissão para Intercâmbio Educacional entre EUA e Brasil, em 1988. Dois anos depois, retornou à já Fundação Biblioteca Nacional como assessora do presidente Affonso Romano de Sant’Anna, que a considerava “notável”.

Jannice Monte-Mór nasceu em Osasco, São Paulo, em 23 de julho de 1927 e

Morreu em seu aniversário de 78 anos, em 2005, no Rio de Janeiro. Há uma biblioteca com seu nome, em Andrade Costa, na cidade de Vassouras

Principais realizações na Biblioteca Nacional

– Implementação parcial da reforma administrativa;

– Recuperação física e tombamento do edifício sede pelo IPHAN;

– Implementação da microfilmagem visando à preservação do acervo, com a instituição do Plano Nacional de Microfilmagem de Periódicos Brasileiros (PLANO);

– Desenvolvimento do Formato CALCO (Catalogação Legível por Computador);

-Inventário do acervo de periódicos e processamento por computador do acervo correspondente;

– Inventário das diversas seções e Divisões de Referência Especializada, pela primeira vez realizado na BN, de forma minuciosa e sistemática;

– Instalação de telex e do terminal de computador PRODASEN (ligação direta do sistema do Senado para receber informações de legislação);

– Estudos preliminares, elaborados por Comissão Técnica, para fundamentar o projeto de um futuro Edifício-Anexo para a BN;

– Atualização das publicações periódicas: Anais da Biblioteca Nacional e Boletim Bibliográfico;

– Implantação do Sistema ISBN;

– Designação da BN, pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, como biblioteca depositária das fitas magnéticas do Formato MARCII;

– Aumento das pesquisas sobre conservação e restauração de documentos com a participação de técnicos estrangeiros e nacionais.

(Ester Lima, com informações do texto de Thalles Siciliano)

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Capa do Livro O Leigo e o Especialista