Virgulino Ferreira “O Rei do Cangaço”

quinta-feira, 4 de junho de 2020.
Notícia
Virgulino Ferreira, Rei do Cançaço, Lampião, Fundação Biblioteca nacional
Essa poderia ser a história de um brasileiro, nascido em Serra Talhada, em 4 de junho de 1898 e que, apesar da seca, da miséria, da fome, uma constante entre as populações do sertão do Nordeste Brasileiro, seguiu em frente e venceu as adversidades, cursou uma universidade e formou-se. Escreveu para jornais e revistas da época. Foi reconhecido internacionalmente por seus poemas. Embora reconheçamos e congratulemos quem faz esse percurso, nosso personagem não foi desses.

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Justiça para Lampião - Revista O Cruzeiro (RJ)
Justiça para Lampião - Revista O Cruzeiro (RJ)

Poderia, por outro lado, começar caracterizando o Cangaço como o fez a polícia de Getúlio Vargas, e seu Estado autoritário, como bandidos e vândalos, e-ponto-final. Entretanto, gostaria de convidar a todos a uma outra reflexão sobre esse fenômeno, para além da classificação entre herói e criminoso ou bem versus mal, pois as questões que envolvem movimentos contestatórios são bem mais complexas do que a simplificação descritiva do mocinho contra o bandido.

Ao analisarmos historicamente a situação do Nordeste brasileiro percebemos que, desde tempos imemoriais e, mais acentuadamente após a seca de 1877, a região é marcada pela ausência/insuficiência, de políticas econômicas e sociais do Estado para conter o crescimento da pobreza. A abolição da escravidão sem um pacto social, que desse aos ex-escravos condições dignas de trabalho, educação, moradia, aprofunda ainda mais o caráter miserável de grande parte do povo brasileiro. Durante o século XX, a crescente falta de investimentos, a concentração de terras nas mãos de latifundiários, a ausência de seriedade na administração pública (O Ceará, http://memoria.bn.br/DocReader/765198/285), as dificuldades da manutenção da pequena propriedade pelas famílias agrícolas, as intempéries climáticas características de regiões semiáridas, empurram as populações nordestinas a difíceis situações: a morte pela fome, a sujeição ao trabalho pessimamente remunerado, beirando a escravidão, a migração para os centros urbanos, especialmente para as regiões Sul e Sudeste do país, em busca de uma vida melhor, deixando para trás a suas raízes e sua família.

Em outra mão, as vias de não sujeição, como a criminalidade, a corrupção, a revolta social, aparecem como uma resposta agressiva às lacunas deixadas pelo Estado. Aprofundam sua  situação, já marginalizada pela ausência de investimentos sociais, públicos ou privados, financiados por saques, rapinas e, também, por colaboradores inseridos nos poderes públicos, e adotam a violência como forma de solucionarem as suas carências materiais mais imediatas. Uma dessas vias de insubordinação foi o fenômeno do Cangaço, atuante desde o século XIX, no sertão nordestino.

Pelos anos de 1830, já encontramos referências aos bandos armados que atemorizavam cidades no sertão nordestino. O termo “cangaceiro”, é uma referência a uma armação de madeira, a “canga”, que eles usavam nos animais, para transportarem utensílios. Há dois tipos de cangaceiros: os bandos de assaltantes e os bandos de mercenários, mais comumente denominados de jagunços, evocando uma tradição de sertanejos e desbravadores (Revista da Semana,http://memoria.bn.br/DocReader/025909_03/9435), para serem diferenciados dos primeiros, entendidos como “bandidos”. Contudo, sua prática é muito semelhante: utilizam-se da violência para tomar o que for necessário à sua satisfação material e/ ou proteção.

Um dos primeiros nomes conhecidos de cangaceiros foi Jesuíno Alves de Melo Calado, o “Brilhante”. Sua figura, ora romantizada, ora folclorizada, ora criminalizada, apareceu em 1870 e serviu de inspiração para os grupos posteriores, em atuação no século XX. Posteriormente, durante os anos de 1920, procurando fugir da fome, driblar a sujeição clientelista aos coronéis e, ao mesmo tempo, conquistar respeito e temor por onde passava, outro personagem se firmaria como  lenda no Cangaço Brasileiro. Virgulino Ferreira: o Lampião, também conhecido como “O Rei do Cangaço” ou “O Governador do Sertão”.

Sua figura é mais do que polêmica. Ocupando uma zona cinzenta dentro daquela dualidade bem/mal, que costumeiramente nos habituamos a operar, ao mesmo tempo em que auxiliava e apadrinhava os menos favorecidos, causava terror aos poderosos das regiões pelas quais passava. Nas contendas, enfrentava tropas federais, que a cada ano fechavam mais o cerco contra os grupos rebeldes, e combatia os bandos de jagunços, os mercenários contratados pelos fazendeiros para garantirem a dominação em sua região, “libertando” sertanejos subjugados.

Apareciam, vez por outra, cantados em poesia de cordel, cada um dos Bandos de Cangaceiros. Sim, havia vários: do Lampião, do Corisco, do Zé Sereno, do Antônio de Engracia… Alguns desses eram tributários ao próprio Lampião. Também os encontramos citados em obras da Literatura brasileira, como romances de José Lins do Rego, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Ariano Suassuna – desse, a obra prima O Auto da Compadecida traz um dos mais belos cenários de redenção quando, após as rogativas de Nossa Senhora, o cangaceiro Severino é perdoado de seus pecados.

Mas voltemos ao Virgulino Ferreira. Segundo contam os estudiosos de sua biografia, até 1919, levava uma vida comum em Vila Bela, atual Serra Talhada – PE, onde nasceu. Embora seja contestada, a data de nascimento mais comum é a de 4 de junho de 1898. Trabalhava como artesão e, no trato pessoal, era conhecido como uma pessoa simples e amável, preocupado com a sua família. Mas tudo mudou quando, naquele ano, por causa de disputas de terra, teve sua família assassinada por policiais (O Cruzeiro, http://memoria.bn.br/DocReader/003581/124705). Da combinação de fatores como a miséria, a falta de segurança para a família, a falta de amparo social, o autoritarismo policial, saía de cena o Virgulino Ferreira da Silva. Assumia o Lampião.

Resolvendo fazer justiça com as próprias mãos, jurou vingança e, em 1922, Lampião já executava seus assaltos. Em sua sede de reparação, escolheu a via da insubordinação, da marginalidade ou, como assinalam alguns, do “banditismo social”. Fez sua escolha, dentre aquelas difíceis que citamos anteriormente, e tornou-se líder do bando comandado por outro cangaceiro – Sinhô Pereira. Alfabetizado, e muito hábil com o manejo de armas, logo tornou-se o alfa de outros grupos de cangaceiros. Vingou a morte de seu pai, assassinando o informante que o havia denunciado à polícia. Mas não parou por aí. Lampião e seu bando atacaram fazendas e cidades em sete estados além de praticar roubo de gado, saques, sequestros, assassinatos, torturas, mutilações e estupros.

A complexidade da vida de Lampião vai além das suas práticas sanguinárias, daí a necessidade de não simplificarmos suas ações exclusivamente como ruins. Apesar da ferocidade de sua atuação na marginalidade, era devoto de Padre Cícero e respeitava as suas crenças e conselhos. Entretanto, os dois se encontraram uma única vez, no ano de 1926, em Juazeiro do Norte. Respeitava não só Padre Cícero, mas os religiosos e as mulheres idosas, bem como castigava aqueles que, dentre os seus, maltratassem um idoso (O Paiz, http://memoria.bn.br/DocReader/178691_06/4847).

Em sua trajetória errante, constituiu família. Sua companheira, Maria Gomes de Oliveira, mais conhecida como Maria Bonita, conforme apelidada pela imprensa, juntou-se ao bando em 1930, sendo a primeira das mulheres a integrá-lo. Virgulino e Maria tiveram uma filha, Expedita Ferreira Nunes, nascida em 13 de setembro de 1932, e que não ficou com o bando, pois os pais a queriam protegida da vida marginal. O casal teria tido ainda dois natimortos.

A repressão do Estado Novo (1937-1945), de Vargas, logo se faria sentir. Gradualmente o bando seria cada vez mais cercado e acuado. Até que, em uma emboscada, Lampião – que teria esse apelido devido a velocidade dos disparos de sua arma, iluminando as noites (O Malho, http://memoria.bn.br/DocReader/116300/95404) – e seu bando, seriam mortos em Sergipe, em 1938.

Como forma de “castigo exemplar”, os restos mortais dos cangaceiros, em especial suas cabeças, foram expostos em um gesto de legitimação da supremacia do Estado, sobre a vida e a morte daqueles que se rebelam contra o poder dos grupos dominantes. Outros cangaceiros do período se entregaram, em troca de anistia. Mas os bandos armados não foram totalmente extintos na História brasileira. Em 1964, por exemplo, há notícias da atuação do bando do “Chapéu de Couro” (Cruzeiro, http://memoria.bn.br/DocReader/003581/152182).

Virgulino Ferreira da Silva foi um brasileiro que levou ao extremo sua sede de justiçamento e vingança, sua busca de compensação pelas perdas sofridas. Herói para uns, criminoso para outros,o fato é que, utilizando seu exemplo como estudo de caso para exercitar a crítica, e inserindo em nossas análises a influência do componente social sobre a trajetória de vida de cada um, observamos, por exemplo, a fragilidade social provocada por um Estado que, ao deixar lacunas em suas políticas públicas e sociais e apartar-se das necessidades mais básicas do seu povo, cria condições para o surgimento de movimentos contestatórios. E para resolver a crise, lança mão do autoritarismo e de execuções sumárias, como o citado "castigo exemplar” - algo bastante recorrente na formação do Estado Brasileiro desde os seus primórdios, e que podemos encontrar em outros eventos em nossa História, como a morte de Tiradentes (1789), o extermínio de populares no Arraial de Canudos (1896-97), o arrasamento da região do Contestado (1912-1916). Essas análises, dentre outras possíveis, são necessárias para que, olhando os equívocos do passado, possamos reverter situações similares, oferecendo subsídios para que políticas públicas adequadas, com amparo social e respeito a democracia, sejam adotadas.

(Raquel Ferreira)