O milho e as Festas Juninas

segunda-feira, 22 de junho de 2020.
Notícia
milho, Festa Junina, Fundação Biblioteca nacional
Cuzcuz de milho, curau, pamonha, pipoca, broa de milho, quentão. É a imagem que me vem à mente enquanto elaboro essa pesquisa sobre as festividades do mês de junho, tal qual a lembrança contada na Fon-Fon (http://memoria.bn.br/DocReader/259063/5104). O prato principal das festas, o milho, é um dos alimentos mais importantes na dieta dos povos originários das Américas, sendo considerado sagrado em muitas desas culturas.

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Receitas Juninas - Manchete (RJ)
Receitas Juninas - Manchete (RJ)

O milho (Zea mays) é um cereal de origem mexicana e seu cultivo remonta há mais de 10 mil anos atrás, na área central do México, habitada por povos Astecas, Toltecas e Maias. O nome milho deriva do numeral “mil”, em referência a quantidade de sementes presentes em cada espiga. Sua versatilidade permite a utilização como alimento humano e animal, oferecendo fibras, proteínas, carboidratos, e vitaminas do complexo B Os pratos e bebidas preparadas com milho fornecem energia, protegem as células do organismo, reduzem as taxas de colesterol e de açúcar no sangue, dentre outros benefícios.

O cultivo do vegetal se espalhou gradualmente por toda a extensão das Américas, e cada povo adaptou o uso do cereal as suas condições socioculturais e climáticas. São incontáveis as variedades de milho que caracterizam-se por sementes ora mais duras, outra mais doces, ora redondas, ou dentadas, amarelas, vermelhas, brancas. O resultado é visível na quantidade de derivados, e receitas, diferentes que se pode obter a partir desse ingrediente: polenta, mingau, maisena, cuzcuz, fubá, pipoca, broa, bolo de milho, bolo de fubá, pamonha, curau. Também há bebidas, como a chicha peruana.

Na atualidade, seu consumo ocorre em quase todo o mundo, com destaque para a América Central, alguns países do Continente Africano, como a África do Sul. O Brasil, terceiro maior produtor desse cereal no mundo, tem um consumo per capita de 19 a 49 kg por ano. No Rio de Janeiro, saborear um prato de “Angu do Gomes” era um clássico para quem circulava pelas madrugadas da Praça XV de Novembro (Manchete,http://memoria.bn.br/DocReader/004120/229974). A tradicional barraquinha de comércio ambulante do Gomes, hoje um restaurante, servia a iguaria (um caldo encorpado feito com fubá bem fino, regado com molho de miúdos de bovinos ou suínos), a quem transitava naquele ponto do Centro da cidade, desde 1955 (O Cruzeiro, http://memoria.bn.br/DocReader/003581/194170).

O milho é um dos vegetais mais utilizados em pesquisas genéticas. Contudo, o milho transgênico, comercializado em larga escala no Brasil e em outros pontos do mundo, vem sendo alvo de críticas por conta da falta de comprovação eficiente acerca dos malefícios causados pelo consumo humano, bem como do plantio, do vegetal modificado geneticamente (Manchete,http://memoria.bn.br/DocReader/004120/312091; Fatos Marcantes,http://memoria.bn.br/DocReader/465291/554; O Fluminense,http://memoria.bn.br/DocReader/100439_14/4880). O acirrado debate sobre os transgênicos levou a elaboração de normas de rotulagem obrigatória para indicar a presença dessa matéria-prima nos produtos industrializados (O Fluminense,http://memoria.bn.br/DocReader/100439_14/5957).

Em oposição ao transgênico, a opção é o consumo do alimento de origem orgânica, isto é: livre de agrotóxicos (pesticidas químicos que degradam o solo e podem causar danos aos seres humanos, em seu uso contínuo) e de manipulação genética. Produzidos localmente, e em propriedades familiares, os orgânicos ganham espaço entre aqueles que têm a oportunidade de contatar esses produtores, e já aparecem nas prateleiras de alguns mercados. Em números de 2010, segundo o Jornal do Brasil (http://memoria.bn.br/DocReader/030015_13/13684), a agricultura familiar era responsável por 32% do PIB brasileiro.

Optando, ou não, pelo uso do milho orgânico, considerado mais saudável e economicamente sustentável, visto que sua produção, via de regra, é efetuada pelos pequenos proprietários da agricultura familiar cujo manejo causa menores impactos na degradação ambiental (Jornal do Commércio,http://memoria.bn.br/DocReader/364568_19/86073), o fato é que nos aproximamos do período e que o consumo desse produto aumenta consideravelmente no Brasil. Junho é o mês das comemorações de Santo Antônio, São João e São Pedro. As chamadas “Festas Juninas”, expressão da cultura popular brasileira com presença marcante do milho nos pratos típicos em várias regiões do Brasil, em especial no Nordeste. Nesse ano, as festividades devem ser adiadas, por conta da quarentena, mas um milho cozido com manteiga, ou aquele bolo de milho, dá pra fazer em casa...

E não se trata apenas de um consumo ocasional. A importância do alimento é tal que ele é considerado um dos aliados no combate à fome no mundo. Não à toa, o fubá, uma farinha obtida a partir da moagem dos grãos do cereal, consta como um dos alimentos da cesta básica essencial para as famílias brasileiras.

Assim como o quadrinho de O Tico-Tico (http://memoria.bn.br/DocReader/153079/37156), muitas crianças trazem uma lembrança junina ligada às comidas típicas da época. Seja o bolo de milho, o mingau, a polenta. Aquela comidinha aconchegante, que embala os dias frios do inverno e lembra momentos felizes em companhia da família ou de amigos queridos. As minhas memórias juninas estão ancoradas na broa de milho e no bombocado, com quentão - claro!

(Raquel França dos Santos Ferreira)