Os dias em que J. Carlos previu – e acertou

sábado, 13 de junho de 2020.
Notícia
José Carlos de Brito e Cunha, Chargista, Fundação Biblioteca nacional
“Foi assim / No dia em que todas as pessoas / Do planeta inteiro / Resolveram que ninguém ia sair de casa / Como que fosse combinado em todo o planeta / Naquele dia, ninguém saiu saiu de casa, ninguém”. Já virou piada, daquelas em que a gente ri, de nervoso. Raul Seixas, na música “O dia em que a Terra parou”, parecia estar prevendo a atual pandemia de Covid-19. O nome do disco em que a canção está também parece fazer parte da sacada: “As profecias”.

Pois não foi só Raul. José Carlos de Brito e Cunha, o popular chargista, ilustrador, diagramador e caricaturista J. Carlos, referência não so no humor ilustrado como nas artes gráficas brasileiras, também já deu uma de vidente. Retratando a política, a cultura e os costumes da sociedade brasileira da primeira metade do século XX, sua época, o desenhista – dos maiores da imprensa brasileira – deixou vasta contribuição, sobretudo nas revistas O Malho, Careta, Tico-Tico e Para Todos, disponíveis na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Dois livros, “O Vidente Míope”, de Cássio Loredano e Luiz Antonio Simas, e “O Desenhista Invisível”, de Julieta Sobral, são boas referências sobre o artista.

Mas, por que chamar J. Carlos de vidente, como no título do primeiro livro? Primeiro, porque previu o assassinato do senador Pinheiro Machado, em 1915. Depois, J. Carlos antecipou, em três anos, que São Paulo não continuaria por muito tempo dentro do arranjo oligárquico conhecido como “política do café com leite” – pacto com Minas Gerais que seria, de fato, rompido pelo presidente Washington Luís. Previu ainda, quarenta anos antes, o desmonte da União Soviética, cantando ainda a pedra de que Leningrado voltaria a ser São Petersburgo. E como se não bastasse, sua bola de cristal a nanquim também apontou, numa seara muito mais sinistra, que a Alemanha recém derrotada na Primeira Guerra Mundial voltaria – e como – para um segundo e sangrento round, vinte anos depois. Deu de 4 a 1, no embate contra Raul.

Há quem diga que J. Carlos não previu o estouro da Revolução de 1930. Ou, se previu, não a colocou em traço onde então trabalhava, n’O Malho. De fato, esta revista era decididamente favorável ao regime que vinha se mantendo sob Washington Luís, líder que seria deposto e exilado naquele ano. Em certas fogueiras é melhor não jogar mais lenha: que o diga um pai de cinco filhos, e que já havia irritado um presidente da República, Hermes da Fonseca, nos tempos em que imprimia sua graça na Careta.

Apesar de nunca ter pisado na Europa, J. Carlos era leitor voraz de obras sobre o que quer que estivesse em voga por lá – sobretudo no circuito das artes. Sua antevisão incomum, afinal, vinha em paralelo ao seu traço, moderno, limpo, inconfundível: estava à frente de seu tempo, literalmente. Eis que, vinte anos antes da Segunda Guerra eclodir, J.Carlos publicou na capa de Careta n° 573, de 14 de junho de 1919, um cartum onde uma figura representativa da Germânia encontra-se amarrada num pelourinho. Ali, a alma de uma “Indomesticável” Alemanha prometia que, em 15 anos, haveria uma revanche. Houve apenas um pequeno erro – desculpável – na data da previsão.

(Bruno Brasil – CPS)