Em torno de uma entrevista com Aldir Blanc

sábado, 9 de maio de 2020.
Notícia
Aldir Blanc, Fundação Biblioteca nacional
O Pasquim deu projeção ao Aldir Blanc cronista, mas o Aldir letrista já era conhecido de muitos quando a edição de julho de 1975 trouxe a entrevista "Tem um psiquiatra no samba". Nas rádios, a voz de Elis Regina cantava "Dois pra lá, dois pra cá", composição de Aldir e João Bosco incluída no disco "Elis", de 1974, ao lado de outras duas canções da dupla "O mestre-sala dos mares" e "Caça à raposa". Em 1975, João Bosco já havia lançado seu segundo disco "Caça à raposa", todo ele com canções suas e de Aldir: 12 faixas, as três já interpretadas por Elis e, para citar só duas, "De frente pro crime" ("Veio o camelô vender....anel, cordão, perfume barato, baiana pra fazer....pastel e um bom.... churrasco de gato") e "Kid Cavaquinho" ("Genésio!... A mulher do vizinho / Sustenta... aquele vagabundo").

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Aldir Blanc e a filha Mariana Blanc. Entrega da medalha Pedro Ernesto a Edmar Morel, João Bosco e Aldir Blanc – Homenagem post-mortem a João Cândido – Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro (29/11/1984). Coleção Edmar Morel.
Aldir Blanc e a filha Mariana Blanc. Entrega da medalha Pedro Ernesto a Edmar Morel, João Bosco e Aldir Blanc – Homenagem post-mortem a João Cândido – Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro (29/11/1984). Coleção Edmar Morel.

A entrevista - curta para o padrão das célebres entrevistas do Pasquim - traz detalhes sobre a infância nos bairros cariocas do Estácio e de Vila Isabel, o começo da paixão pela música, a formação literária e outras influências não menos decisivas para o universo lírico do compositor, bem traduzidas nesse diálogo: "Pasquim: Aldir, você parece estar evitando das influências mais pesadas, mais literárias mesmo. Aldir: Não quero falar de Pound, de Llorca, de Maiacovsky. Vai confundir tudo. É melhor a gente falar de sinuca." Sobre as primeiras referências da formação musical, Aldir cita a importância de Noel Rosa. Coincidência, ou não - para quem não se prende à página fria do calendário -, Noel também morreu em um 4 de maio, em 1937. Aldir relata por que deixara a medicina - então "uma viagem ao mundo dos doutores, alguns de fraque e monóculo" em que era preciso se acostumar com a dor dos outros e a "tomar aquela água mineral morna". Fala das primeiras aparições na cena musical universitária, a passagem pelo MAU - Movimento Artístico Universitário, que revelara também nomes como Ivan Lins e Gonzaguinha. E do encontro com João Bosco, da parceria que começou devagar como um "namoro na roça". A entrevista é também reveladora do letrista como ativista dos direitos do compositor brasileiro. Em defesa de um sistema de arrecadação de direitos mais justo e transparente, Aldir e outros artistas de peso fundaram o movimento SOMBRÁS. A esse respeito, também no Pasquim (nº 334), vale a pena a leitura de uma densa entrevista com Aldir e os colegas envolvidos na criação do movimento, um documento relevante para a história do direito autoral no país. Essa é apenas uma rápida vista sobre um pequeno fragmento da vida e da obra de Aldir. Inúmeras composições que enobrecem o cancioneiro brasileiro ainda estavam por vir, com João Bosco e outros parceiros como Cristovão Bastos, Guinga, Maurício Tapajós e Moacyr Luz na voz de intérpretes como Elis (icônicas versões), Clara Nunes, Nana Caymmi, Leila Pinheiro, entre outros, como o próprio Aldir no disco "Vida noturna" de 2005. Como revela a entrevista, à época já eram 60 canções gravadas. Segundo Luiz Fernando Vianna, autor de "Aldir Blanc: Resposta ao Tempo - Vida e Letras" (Casa da Palavra, 2013), ao longo de cinco décadas foram mais de 600 criações. A morte de Aldir Blanc é a morte de quem fez a vida dando palavras àquilo que só uma canção é capaz de fazer surgir em quem a ouve. "Glória a todas as lutas inglórias Que através da nossa história Não esquecemos jamais" (O mestre-sala dos mares)

Aldir Blanc e a filha Mariana Blanc. Entrega da medalha Pedro Ernesto a Edmar Morel, João Bosco e Aldir Blanc – Homenagem post-mortem a João Cândido – Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro (29/11/1984). Coleção Edmar Morel.
(Agradecimentos a Isabel Blanc)

 (Fábio Lima)

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