Obras Poéticas de Mattos Guerra

quarta-feira, 6 de maio de 2020.
Notícia
Gregório de Matos, Barroco, língua portuguesa, Fundação Biblioteca nacional
Gregório de Mattos Guerra foi um dos maiores escritores do barroco em língua portuguesa. Sua biografia tem algumas imprecisões, a começar pelo ano de nascimento: algumas fontes dizem ter sido em 1623, outras em 1633 e outras, ainda, em 1636. O que se sabe é que nasceu em Salvador e que, após ter feito os primeiros estudos com os jesuítas da Bahia, foi completar sua formação em Coimbra, como era comum entre os filhos de famílias abastadas. Doutorou-se em Direito e trabalhou alguns anos em Portugal, onde teria escrito seu famoso poema “Marinícolas”, baseado em canção anônima, que satirizava a homossexualidade.

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As Obras Poéticas do Dr. Gregório de Matos
As Obras Poéticas do Dr. Gregório de Matos

Por volta dos 50 anos, Mattos Guerra regressou à Bahia. Ali tomou ordens religiosas menores e exerceu cargos na administração eclesiástica, dos quais acabou por ser destituído. Passou, então, a viver como um boêmio, escrevendo poemas satíricos que criticavam a sociedade baiana em todos os seus estratos. Isso lhe valeu a famosa alcunha de “Boca do Inferno”. É preciso notar, contudo que sua obra não se resumia a sátiras e aos poemas eróticos pelos quais ficou mais conhecido; também compreendia poemas de teor religioso e espiritual. Essa vertente do seu trabalho expressa todas as contradições do Barroco, um período em que o homem, aprisionado entre o teocentrismo e o pensamento científico - que só viria de fato a eclodir um século mais tarde -, se sentia atormentado pela noção do Mal e do pecado e insignificante perante a grandeza de Deus.

As sátiras de Gregório de Mattos, bem como sua irreverência e costumes tidos como libertinos, o fizeram conquistar tanto amigos – como o poeta português Tomás Pinto Brandão -- quanto inimigos, sendo alguns bem poderosos.  Em 1685, ele foi denunciado ao Tribunal da Inquisição, acusado, entre outras heresias, de não descobrir a cabeça diante de uma procissão. O processo não foi adiante, mas, pouco tempo depois, outras acusações o levaram a ser degredado para Angola. Ali trabalhou como advogado e, após alguns serviços prestados ao governo colonial, conseguiu retornar ao Brasil, com a condição de não mais residir na Bahia.

Em vez disso, estabeleceu-se no Recife, onde viria a morrer de uma febre contraída na África, em 1695 ou 1696.

Gregório de Mattos Guerra não publicou livros em vida, mas muitos manuscritos com suas obras circularam no Brasil Colonial, boa parte deles copiada por admiradores. O que apresentamos traz a data de 1775, pertenceu a D. Pedro II e integra a Coleção Theresa Christina Maria, doada pelo imperador à Biblioteca Nacional em 1891. O documento está sob a guarda da Divisão de Manuscritos. (Ana Lucia Merege)

Veja também um retrato de Gregório de Mattos Guerra por M. J. Garnier, publicado no livro “Sonetos Brasileiros” (ca. 1890) e pertencente ao acervo da Divisão de Iconografia.