Montanistas versus Orsatistas

quinta-feira, 21 de maio de 2020.
Notícia
montanistas, orsatitas, Fundação Biblioteca nacional
No início de 1851, na capital imperial, ou você era Jesuína Montani ou Leonor Orsat. Não podia ser ambas: tinha que escolher uma. E, se possível, criticar a outra. Tal era a realidade teatral da época: entre a elite carioca, em tempos em que o teatro comovia e mobilizava grande audiências, a disputa entre as atrizes mais destacadas do momento quase chegava às vias de fato. Isso podemos estudar na rica imprensa teatral dos séculos XIX e XX, presente no acervo da Biblioteca Nacional.

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Projeto do novo Theatro Lyrico, no Rio de Janeiro, em imagem de Marc Ferrez feita na década de 1880. Palco de vulto no século XIX, o Lyrico foi demolido em 1934, para construção de um estacionamento.
Projeto do novo Theatro Lyrico, no Rio de Janeiro, em imagem de Marc Ferrez feita na década de 1880. Palco de vulto no século XIX, o Lyrico foi demolido em 1934, para construção de um estacionamento.

Não bastasse a grande imprensa daquele tempo sempre ter seus graúdos colunistas de teatro, inúmeros periódicos específicos sobre a arte cênica eram editados, a todo vapor. Em geral, pequenos e efêmeros jornais de 80 réis voltados ao programa teatral da capital, com divulgação de agenda cultural e, sobretudo, crítica de atores,companhias e espetáculos em cartaz. No caso da polêmica entre Montani e Orsat, jornais assim chegaram a ser fundados por intelectuais com a finalidade especifica de defender uma ou outra. A crítica teatral de grandes jornais diários da imprensa carioca, aliás, nãoguardou reservas: ninguém escondia orsatismos ou montanismos. Mas vamos nos ater aos pequenos jornais, que tinham menos papas na língua.

Parece que tudo começou com uma provocação a Leonor Orsat e seus admiradores publicada no glorioso jornal de variedades Periódico dos Pobres em meados de fevereirode 1851. Lançado ja em 24 de fevereiro de 1851, então, O Orsatista vinha a lume com sangue nos olhos. Nãotinha dó de órgãos “montanistas”, como Sentinella doTheatro, constantemente espezinhado em suas páginas,mesmo destino de O Estandarte e O Montanista, lançados respectivamente em março e maio do mesmo ano, com a finalidade explícita de rebater as investidas orsatistas. Curiosamente, O Montanista e O Orsatistaeram impressos pela mesma tipografia, de F. A. de Almeida, no nº 141 da Rua da Vala, que deve ter lucradohorrores com a querela. Outro jornal envolvido na polêmica foi O Corsário, levemente montanista, apesar de ter sido primeiro louvado, depois rejeitado pel’O Orsatista – e, no fim, odiado tanto pel’O Orsatista quanto pel’O Estandarte. Enfim. Uma confusão só.

Em sua epígrafe, em versos de A. F. de Castilho, O Orsatista dizia a que vinha: “Obrigam-me a desembainhar a espada para lh’a assentar de prancha nas costas... Deixal-a-hei nua sobre a mesa... A’ primeira provocacao... exterminei-os”. A coisa era séria. Seu texto de apresentação, intitulado “A Sra. Montani e os seus partidários”, botava alguns alguns pingos nos is: 

Provocaram-nos; e o cartel desta provocação entalou-o alguém nas columnas do Periodico dos Pobres de 15 do corrente (fevereiro de 1851). Foi uma alentada e incisiva objurgatoria recheiada de insultos e impropérios contra a joven Leonor Orsat e seus partidarios. Temos ouvido que o cão póde ser leal a seu amo sem morder ao viandante que passa; porém o fabricante desse amontoado de asneiras torpes não o entende assim; e julgou esmagar a reputação da Sra. Orsat, pronunciando do alto do seu pelourinho o anathema condemnador! Até aqui os esbirros procuravam por suas palavras conciliar os dous partidos que hoje se agitam na imprensa, e no theatro; mas o despeito de se verem vencidos desesperou-os, e agora sicarios da imprensa occultam o punhal traiçoeiro das invectivas nas encruzilhadas de um jornal: as suas ideas de paz, mudaram-se em justiça de beduínos. (…) Não é á Sra. Montani que fazemos a guerra, é ao seu partido. É a dous ou tres fanfarrões que julgam aniquilar os seus contrarios, apresentando-se em publico com lenços encarnados ao pescoço fazendo alarde das suas mesmas fanfarronices! Parvos!

Seria injusto nao ouvirmos o outro partido. Chamemos ao ringue O Montanista.

Além de sua epígrafe ser uma frase retirada das páginas d’O Orsatista, para ser usada contra o mesmo – “Uma comica não vale a pena de uma discussão seria, quanto mais de uma resposta lithographada ás unhadas no rosto de um cidadão” –, o texto de abertura de seu nº 3, intitulado “Misério do Orsatista”, afirmava o seguinte: 

Que obra bem acabada é esse canto de saudação, empregado pelo Orsatista, para festejar a apparição do Corsario! (…) O que traduzido significa: – Sr. Corsario, pedimos-lhe por compaixão nos cubra com o seu capote ensanguentado, para ver se assim o Montanista tem medo de nós! Ui! Oh! Miséria! Ora, Sr. Orsatista, não suppunhamos que V. S. se julgasse tão mesquinho, que necessario fosse pedir licença a um adversario para tratal-o de collega! (…) Creia, Sr. Orsatista, V. S. está na lama, desde que foi pedir amparo a um inimigo, confessando com esse seu vergonhoso procedimento, que não tem forças para bater-nos, e a esse inimigo desprezamos (…)

E já que se falava n’O Corsário, na edição seguinte, O Montanista traria um “Mimo” ao novo jornal, que vinha se juntar à encrenca: “Que eras ignorante, já o conheciamos há muito tempo: agora porém fortificaste a nossa opinião com tua resposta malcreada, e estupida, indigna de quem recebeu ainda a mais imperfeita educação. Braveja, detractor, braveja, infame!”

Só para constar: tanto o autor deste texto quanto a Biblioteca Nacional se eximem de tomar partido nessa briga. Paz.

(Bruno Brasil )