Maria Firmina dos Reis, primeira autora brasileira

sábado, 9 de maio de 2020.
Notícia
Maria Firmina do Reis, Autora brasileira, mulher, Fundação Biblioteca nacional
Mulher, negra, filha ilegítima, criada com poucos recursos em uma pequena cidade no interior do Maranhão, Maria Firmina dos Reis ultrapassou as barreiras raciais, sociais e de gênero e se tornou a primeira autora brasileira, publicando em 1859 um romance pioneiro na crítica antiescravista da literatura do país, nomeado Úrsula.

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Anúncio do romance Úrsula, publicado no jornal A Imprensa, 16/05/1860
Anúncio do romance Úrsula, publicado no jornal A Imprensa, 16/05/1860

  “Mesquinho e humilde livro é este que vos apresento, leitor. (...) Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e a conversação dos homens ilustrados”.

 Assim começa a apresentação do romance pela autora, que assinou apenas como “Uma Maranhense”, dentro das “regras” de invisibilidade feminina que eram costume na etiqueta literária do século XIX, marcada pelo anonimato, uso de pseudônimos e autodepreciação. Em 1860,diversos anúncios em jornais do Maranhão destacavam a obra como “excelente romance, que deve ser lido pelos corações senciveis e bem ormados e por aquelles que souberem proteger as lettras pátrias” e “digna de ser lida, não só pela singeleza e elegância com que é escripta, como por ser a estrea de uma talentosa maranhense.”

 Considerado o primeiro romance abolicionista publicado no país, Úrsula tem um enredo romântico com protagonistas brancos, porém apresenta, pela primeira vez, personagens negros –  africanos e afro-brasileiros – que refletem em primeira pessoa sobre as relações opressivas que viviam numa sociedade violenta, escravista e patriarcal. Anos antes do famoso poema “O Navio Negreiro”,  de Castro Alves, Maria Firmina dos Reis apresenta em sua obra descrições não só das senzalas e das violências da sociedade escravista, mas também um relato do tráfico negreiro, narrado em 1ª pessoa na voz da escravizada Susana:

 “Meteram-me a mim me a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio, trinta dias de cruéis tormentos, e de falta absoluta de tudo quanto é mais necessário à vida passamos nessa sepultura até que abordamos às praias brasileiras. Para caber a mercadoria humana no porão fomos amarrados em pé e para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como os animais ferozes de nossas matas. (...) Davam-nos a água imunda, podre e dada com mesquinhez, a comida má e ainda mais porca: vimos morrer ao nosso lado muitos companheiros à falta de ar, de alimento e de água. É horrível lembrar que criaturas humanas tratem a seus semelhantes assim e que não lhes doa a consciência de leva-los à sepultura asfixiados e famintos!”

 Maria Firmina dos Reis foi professora de primeiras letras em Guimarães durante 25 anos e, em 1880, abriu uma inovadora sala de aula mista, que causou escândalo numa época em que a igualdade de educação para as mulheres era bandeira de luta, e acabou fechada pouco depois. Poeta reconhecida em sua comunidade, colaborou com a imprensa e teve seus poemas publicados em diversos jornais do Maranhão, como A Pacotilha, Echo da Juventude e  Semanário Maranhense. Em 1887 publicou também o conto abolicionista “A Escrava”. Sua obra inovadora, esquecida por mais de um século, foi redescoberta pelos pesquisadores, mas está ainda à espera do reconhecimento público que merece. 

(Maria Angélica Bouzada)