Lima Barreto, a voz da gente do povo

quarta-feira, 13 de maio de 2020.
Notícia
Lima Barreto, obra, Fundação Biblioteca nacional, literatura, literatura brasileira
O dia 13 de maio de 1888 tornou-se um marco para a história do nosso país, data em que foi promulgada a Lei Áurea, lei que abolia a escravidão no Brasil. Nesse mesmo dia, alguns anos antes, nascia o escritor e romancista Lima Barreto. Dotado de grande senso de justiça, Lima Barreto dedicou sua escrita para dar voz à gente do povo. Negros, mulheres, trabalhadores, suburbanos, a obra de Lima Barreto tinha como princípio basilar a crítica social.

cobertura-6424-lima-barreto-voz-gente-povo.jpg

Afonso Henriques de Lima Barreto
Afonso Henriques de Lima Barreto

Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu no bairro das Laranjeiras, Rio de Janeiro. Sua mãe, escrava liberta e professora, veio a falecer um ano antes da abolição. O pai era tipógrafo da Imprensa Nacional, e, anos mais tarde, trabalhou como Chefe de almoxarifado na Colônia dos Alienados na Ilha do Governador, local onde Lima Barreto passara a morar com o pai. Neto de escravos e filho de mestiços, Lima Barreto trazia nas suas vivências as adversidades de pertencer em uma sociedade tão desigual.

Com auxílio do padrinho Visconde de Ouro Preto, frequentou o Colégio D. Pedro II, e depois o Liceu Popular Niteroiense. Em 1897, ingressou na Escola Politécnica de Engenharia, onde mais tarde abandonaria o curso de Mecânica para se dedicar à literatura. A formação obtida em instituições pertencentes à elite brasileira trazia, em contrapartida, as dificuldades quanto ao reconhecimento social, devido aos preconceitos de classe e, sobretudo, de cor.

A obra de Lima Barreto assumia por vezes um tom autobiográfico, dando vazão às desilusões e angústias sofridas pelo autor. Na literatura, através do primeiro romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha” história de um jovem negro vindo do interior, vítima de preconceitos raciais, ficamos a par do caráter de denúncia presente em sua narrativa. Já nas folhas matinais, o cronista apresentava, com sua verve satírica, uma linguagem cotidiana, despida de academicismos. Seus romances eram publicados regularmente em folhetins nos principais jornais da época. Assim foi com “Triste fim de Policarpo Quaresma”. As personagens femininas também tinham destaque em sua obra. “Clara dos Anjos” e “Numa e a Ninfa” revelam a preocupação do autor sobre a educação feminina e as restrições contidas.

A condição de órfão e arrimo de família implicava o autor numa vida de parcos recursos, cuja renda como escritor, somada ao salário de amanuense pelo Ministério da Guerra, garantia apenas uma vida modesta no bairro de Todos os Santos, subúrbio carioca. Dívidas e problemas de saúde conduziram a vida de Lima Barreto. A doença do pai, aposentado por loucura, e o alcoolismo do qual o autor não conseguia superar, levando-o a casas de saúde, marcaram os últimos anos de vida do autor. A obra inacabada “O Cemitério dos Vivos”, adaptada a partir do diário que escreveu durante as internações revela a extensão de suas inquietações, como a de não ter concluído o curso superior. Diagnosticado ao fim da vida como louco por suas crises e alucinações, morreu vítima de ataque cardíaco em 1 de novembro de 1922.

Culto, irreverente, gênio e louco. Lima Barreto deixa como legado uma vasta obra de contos, romances e poesias, fruto de uma alma inconformada e incansável por justiça.

Em 1947, a Fundação Biblioteca Nacional adquiriu o Arquivo Lima Barreto, composto por aproximadamente 1126 documentos compreendidos entre as datas 1892-1922, custodiado na Seção de Manuscritos. O conjunto é de grande interesse, não apenas para pesquisadores da Literatura como também para os cientistas sociais e historiadores, principalmente os que trabalham com questões ligadas às relações interraciais. Sua importância foi reconhecida em 2017, com a nominação do Arquivo Lima Barreto pelo Registro Memória do Mundo da UNESCO.

Veja alguns documentos do Arquivo na BN Digital:

- Carta do jovem Afonso para seu pai, explicando o porquê de não poder sair do internato em Niterói.

- Caderno de Lima Barreto com apontamentos sobre a distribuição de “O Triste Fim de Policarpo Quaresma”. Entre notas a respeito de exemplares enviados a amigos e jornalistas, um desabafo: “Passou-se o Carnaval e Portugal teve a scisma de provocar guerra com a Allemanha.  As folhas não se importaram com outra cousa (...) E não têm tempo de falar no meu livro, os jornaes, estes jornaes do Rio de Janeiro.”  

- Fragmento de um dos manuscritos de “Clara dos Anjos”, datado de 1919. Lima Barreto o concluiu em 1922, ano de sua morte. O romance, que denuncia injustiças sociais e raciais e expõe a fragilidade da posição das mulheres negras, só viria a ser publicado em 1948.