Hospedaria de Imigrantes Ilha das Flores

domingo, 10 de maio de 2020.
Notícia
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O ano era 1883 e, para oferecer abrigo temporário, bem como condições de recuperação, atendimento médico e quarentena sanitária, após longas e difíceis viagens de navio, aos imigrantes portugueses, alemães, italianos, polacos e espanhóis que chegavam ao Brasil rumo às lavouras cafeeiras, foi inaugurada a Hospedaria de Imigrantes da Ilha das Flores, em 10 de maio, a primeira instituição do gênero no país.

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Hospedaria de Imigrantes Ilha das Flores - Relatórios da Ministério da Agricultura (RJ)
Hospedaria de Imigrantes Ilha das Flores - Relatórios da Ministério da Agricultura (RJ)

Inicialmente propriedade particular de Delfina Felicidade do Nascimento Flores, a Ilha originalmente se chamaria Santo Antônio. Provavelmente em quitação a dívidas da proprietária, a Ilha passou a pertencer à Província a partir de 1834. A área fez parte do município de Niterói até o ano de 1890, posteriormente passando a integrar o território de São Gonçalo, município vizinho. Manteve a função de Hospedaria até o ano de 1966, sendo ocupada, dali em diante, pela Marinha do Brasil.

Embora tenha sido inaugurada oficialmente em 1883, instituída pela Inspetoria de Terras e Colonização do Ministério da Agricultura, o primeiro livro de registro de entrada de imigrantes é datado do ano de 1877.

Um dos três pontos principais de entrada de imigrantes do período - os outros dois eram em Santos-SP e Salvador-BA - o Rio de Janeiro os encaminhava, após registro alfandegário, para Ilha das Flores. Dali, os futuros colonos e trabalhadores rurais seguiriam para o interior do país.

De localização privilegiada, há poucos minutos de distância da Capital, via embarcação, e próxima a linha férrea de Niterói, alojar-se ali seria um dos “favores” dados pelo Estado Brasileiro, até que o trabalhador fosse conduzido ao seu destino final, como explica o periódico A Immigração, de 1884: “Resumo dos favores concedidos à imigração espontânea pelo Governo do Brazil.

1.ºRecepção no porto do Rio de Janeiro

2.ºAlojamento, agasalho e alimentação na hospedaria da Ilha das Flores pelo tempo necessário até seguirem os immigrantes a seu destino (...)”. [mantivemos as grafias originais]

Ainda em 1884, o Diario Portuguez informa que 45 dos 92 imigrantes recém chegados ao Rio de Janeiro no paquete inglês Aconcagua “aceitaram agasalho na hospedaria da Ilha das Flores”.

Entre 1870 e o início da década de 1920, por conta da demanda cafeeira, o Brasil tornou-se o quarto destino mais procurado no mundo por imigrantes. De fato, nos registros da entrada de imigrantes na ilha, apresentados em relatório do Ministério da Agricultura, para o ano de 1921 contabilizaram-se mais de duas mil pessoas com entrada e acolhimento no local. Nesse mesmo documento, podemos ver a imigração também de franceses, argentinos, japoneses e mais uma dezena de outras nacionalidades, inclusive de brasileiros, que viajavam entre os portos dos Estados em busca de colocação na região Sudeste. No ano de 1918, a Hospedaria serviu também de abrigo para os desempregados pernoitarem, até que encontrassem ocupação (Relatório do Ministério da Agricultura). 

O Relatório do Ministério da Agricultura de 1922 informa ainda que, por ocasião da Exposição Internacional do Centenário da Independência, no Pavilhão dos Estados havia a confecção de uma réplica da Hospedaria .

Infelizmente, “nem tudo são flores”, se me permitem o uso do jargão popular. A Hospedaria sofreu com casos de febre amarela, entre 1889 e 1890 (Relatório do Ministério da Agricultura).

Sabe-se também que a ilha funcionou como presídio durante as décadas de 1930 e 1960, assim como outros edifícios e fortificações do país, naqueles contextos de governos autoritários brasileiros (O Fluminense, 1932).

Além disso, com o aumento de casos de violência urbana naquela região, várias são as notícias de crimes e assassinatos em seu entorno (O Fluminense).

Atualmente, conta com um Centro de Memória do Imigrante, em parceria entre a Marinha e a Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FFP-UERJ). Embora o local seja referência em Memória da Imigração no país, desde longa data (O Fluminense), o Projeto do Centro de Memória foi iniciado em 2010, como informa O Fluminense. Na bela imagem de 2013, publicada na revista O Flu (do jornal O Fluminense), conseguimos vislumbrar parcialmente um dos alojamentos da antiga Hospedaria.

(Raquel França dos Santos Ferreira)