História do Livro: Os Livros Medievais (II)

sexta-feira, 29 de maio de 2020.
Notícia
Livros Medievais, Códice, grafia, Fundação Biblioteca nacional
Nos primeiros séculos da Idade Média, a produção dos livros era concentrada em mosteiros, visto que a Igreja figurava como depositária quase exclusiva do saber e do conhecimento. Por volta de 1100, porém, a demanda por novos textos passou a ser grande o bastante para que os “scriptoria” monásticos passassem a empregar escribas, iluminadores e outros profissionais. O número de oficinas laicas foi crescendo cada vez mais, assim como o comércio de livros, principalmente em cidades universitárias. Em contrapartida, a produção dos mosteiros diminuiu até quase desaparecer por volta de 1300, quando as profundas transformações políticas, econômicas e sociais dos séculos anteriores já prenunciavam o movimento renascentista na Itália.

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Na ilustração, o livro de horas (de orações pessoais), de origem francesa, datado da segunda metade do século XV e com encadernação do século seguinte, feita em couro lavrado sobre madeira.
Na ilustração, o livro de horas (de orações pessoais), de origem francesa, datado da segunda metade do século XV e com encadernação do século seguinte, feita em couro lavrado sobre madeira.

Para descrever, de forma genérica, as etapas de produção de um livro medieval, vamos supor um códice confeccionado nessa época – séculos XIV-XV -- e ornamentado com iluminuras. Ainda que o uso do papel já fosse disseminado, um livro desse tipo seria provavelmente em pergaminho, material mais durável e de “status” mais elevado. O pergaminho era cortado em folhas, as quais eram dobradas e encartadas umas nas outras, formando cadernos; tratando-se de uma oficina, vários cadernos podiam ser preparados simultaneamente pelos artesãos, para serem costurados no final. Isso reduzia o tempo necessário à confecção do livro.

Com as páginas prontas, a primeira coisa a fazer era dotá-las de linhas que serviriam de guia para o escriba. Numa obra mais sofisticada, a diagramação devia prever espaços livres que conteriam as ilustrações, as letras maiúsculas, chamadas de capitais, e, ainda, a distribuição do texto em uma, duas ou mais colunas. Até o século XII, as linhas de guia eram feitas com um estilete; mais tarde, os artesãos passariam a usar um pó metálico ou mesmo tinta colorida. As proporções adotadas na página eram muito importantes, devendo seguir modelos geométricos previamente determinados.

Concluída a diagramação, as páginas podiam receber o registro escrito, o que era feito por meio de hastes de junco (cálamos) ou penas resistentes de aves. As mais comuns, por se prestarem melhor a esse uso. eram as de ganso ou cisne, retiradas da parte externa das asas. Não à toa, o ganso foi simbolicamente associado ao escriba e, por extensão, ao escritor e ao contador de histórias. A ponta do instrumento de escrita era cortada e aparada de forma a obter letras mais finas ou mais grossas, processo que devia ser repetido vezes sem conta à medida que a ponta se gastava.

A tinta preta usada para escrever era de dois tipos: um, obtido a partir de carvão ou fuligem, misturada com cola, e o outro feito de sulfato ferroso misturado a ácido tânico. O primeiro tipo era mais comum em manuscritos antigos, enquanto a tinta à base de ferro foi empregada em quase todos os livros a partir do século XII.

Outra cor utilizada com freqüência pelos escribas era o vermelho, obtido mais comumente do mercúrio, que servia para grafar títulos, cabeçalhos, iniciais e outros elementos de destaque, além de ser usada nas correções. Tintas de escrever azuis e verdes eram também conhecidas, mas seu uso foi muito limitado; pode-se dizer que a imensa maioria dos livros medievais era escrita em preto e vermelho, e, frequentemente, apenas em preto.

Munido do suporte, da pena ou cálamo e do tinteiro, além de uma pequena faca que usava para afiar a pena e raspar da superfície um respingo ou letra malfeita, o escriba podia começar seu trabalho. Às vezes fazia cópias de outros manuscritos; em outros casos, transcrevia palavras lidas por um ajudante, pois era comum que vários escribas se ocupassem do mesmo texto. A variação entre as caligrafias não revela muito sobre eles, embora, segundo o especialista Christopher De Hamel, existam mais assinaturas em livros medievais do que seria de supor. Além disso, alguns escribas se identificavam por meio de explicit, um parágrafo adicional ao texto no qual se anuncia a conclusão daquela obra.

E quanto à ornamentação dos livros, as famosas capitais ornamentadas, miniaturas e iluminuras?

Essa – diriam os sábios – é uma outra história... Fica para o próximo post!

(Ana Lucia Merege)

Na ilustração, o livro de horas (de orações pessoais), de origem francesa, datado da segunda metade do século XV e com encadernação do século seguinte, feita em couro lavrado sobre madeira. Observe, na encadernação, os vestígios de fechos de metal, e perceba, em quase todas as páginas, os traços que orientam a escrita e os demais elementos, como capitais e desenhos, que compõem a página.  A escrita é em latim e francês, com letra gótica, sobre pergaminho. A obra foi adquirida em Paris, em 1947, e tem ex-libris de dois antigos possuidores.

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