As Conferências Populares da Glória

domingo, 17 de maio de 2020.
Notícia
Hotel Glória, Marina da Glória, Bairro da Glória, Fundação Biblioteca nacional
Quando se fala no bairro carioca da Glória, a primeira referência que a memória desponta é, provavelmente, a Igreja de Nossa Senhora da Gloria do Outeiro. Pudera: além de sua beleza, ela não só nomeou o bairro como foi local de batismo de muita gente de vulto, dos filhos de Dom Pedro I a Lima Barreto. Outra referência é o Hotel Glória. E também a Marina da Glória. E o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, o Edifício Manchete, o Memorial Getúlio Vargas, o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, o Palácio São Joaquim, o Templo da Humanidade, o Hospital da Beneficência Portuguesa. Sem contar a pizzaria do Chico, que, por muitos anos, fez a melhor pizza do Rio, sem discussão. Enfim, é fácil evidenciar o peso que a Glória tem. No entanto, ela carrega algo mais, pouco lembrado: foi um importante local de divulgação científica no Segundo Reinado. Feito das Conferências Populares da Glória.

As Conferências Populares da Glória foram palestras públicas iniciadas em 23 de novembro de 1873, sob a coordenação do senador e conselheiro imperial Manoel Francisco Correia – contando, claro, com o apoio do sempre antenado Dom Pedro II. Eram realizadas por intelectuais e estudiosos em escolas do bairro, pretendendo despertar o interesse público para temas e debates variados, além de difundir as ciências no Brasil.

Mas, apesar de sua proposta democratizante do conhecimento, a iniciativa – que também acabou sendo conhecida como “Tribuna da Glória”, por seus intensos debates e polêmicas – acabou formando um público seleto, composto pela família real, pela aristocracia da corte, por profissionais liberais e por estudantes. Reflexo do abismo social em relação à educação.

A iniciativa teve o seu próprio periódico, que trazemos na postagem de hoje: o Conferências Populares, lançado em janeiro de 1876. Dirigido pelo próprio Manoel Francisco Correia, o órgão de divulgação científica das palestras teve periodicidade mensal e formato pequeno, mas mais de cem páginas por edição. Estima-se que o conteúdo destas edições tenha sido composto de palestras proferidas nas Conferências entre 1873 e 1876. Apesar de as Conferências Populares da Glória terem ocorrido entre 1873 e 1888, com uma pequena retomada em 1891, a sua publicação científica, aparentemente, só circulou até a décima edição, de outubro de 1876. Antes e depois de Conferências Populares, o Jornal do Commercio publicava semanalmente anúncios das palestras a serem realizadas no contexto da iniciativa de Manoel Francisco Correia, para depois transcrever resumos de cada uma. Algumas conferências foram ainda publicadas separadamente pelos seus próprios autores.

Do nº 1 ao nº 10, Conferências Populares abordou assuntos variados, em voga no momento. Interessante observar para onde se voltava a nata das mentes científicas do Segundo Reinado, campos não muito diferentes dos cobertos pela academia nos dias de hoje: ciências naturais e sociais, política e gestão pública, cultura, educação. Falava-se de tudo: evolucionismo, instrução da mulher e o papel feminino na sociedade, indústria, literatura (sobretudo história da poesia), teatro, história medieval, história de Portugal e do Brasil, legislação (inclusive a que concerne à classe científica nacional), saúde pública, biologia, estudos de minerais, espiritualidade, adaptação a mudanças climáticas, peculiaridades de províncias brasileiras, ensino moral, positivismo, bases para um sistema de tradução de línguas no Brasil, aspectos da marinha mercante nacional, menores abandonados, sistemas penitenciários, sociedades de socorro, entre outros assuntos.

Entre políticos e acadêmicos, as principais figuras que tiveram suas leituras e estudos transcritos no periódico foram, além do próprio Manoel Francisco Correia, João Manoel Pereira da Silva, A. C. de Miranda Azevedo, Affonso Celso Júnior, Tristão de Alencar Araripe, Joaquim José Teixeira, Nuno de Andrade, Antônio Felício dos Santos, João Pizarro Gabiso, Manoel Jesuíno Ferreira, José Martins da Cruz Jobim, José Liberato Barroso, José Thomaz da Porciúncula, Antônio Limoeiro, Misael Ferreira Penna, Luiz Corrêa de Azevedo, Francisco Ignacio de Carvalho Rezende, Hermann Luiz Gade, Bento Gonçalves Cruz, Joaquim Monteiro Caminhoá, Feliciano Pinheiro Bittencourt, Cunha Ferreira e Rodrigo Octávio.

(Bruno Brasil)