Bolão, irmão caçula do Pasquim

quinta-feira, 7 de maio de 2020.
Notícia
bolão, Futebol, Imprensa esportiva, Fundação Biblioteca nacional
De 1969 a 1991, o semanário O Pasquim foi referência na imprensa humorística brasileira, fazendo escola na arte de fazer troça. Até aí, nenhuma novidade. O que poucos sabem, no entanto, é que o irreverente jornal capitaneado por Millôr Fernandes, Jaguar, Ivan Lessa e Ziraldo teve um irmão caçula, mais voltado para o futebol. Conheçam o Bolão, nanico que, tão ou mais debochado que o irmão mais velho, completa 50 anos de lançamento neste ano.

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Os macetes da loteria - Bolão (O meu jornal preferido)
Os macetes da loteria - Bolão (O meu jornal preferido)

Assim como O Pasquim, Bolão foi um tablóide semanal, lançado no Rio de Janeiro  em agosto de 1970 – ambos eram editados pelo mesmo pessoal e circulavam nos mesmos moldes gráficos. Formalmente era presidido por Tarso de Castro e dirigido por Paulo Francis e José Grossi (diretor comercial), com Sérgio Cabral assinando como editor chefe. Mas, apesar de ser especializado em futebol, Bolão vinha com abordagens que o diferenciavam do restante das publicações esportivas da época. Em outras palavras: era um semanário crítico, irônico, informal, irreverente, criativo e popular, repleto de gírias e piadas (algumas hoje consideradas ofensivas). E era barato: apenas Cr$ 0,50 a edição, com cerca de 16 páginas.

No miolo de sua edição inaugural, Bolão vinha com conteúdo que só ele mesmo era capaz de publicar: trazia as palavras “Ladrão” e “Bicha”, impressas em letras enormes, ocupando páginas duplas, com um indicativo: “Para usar no estádio”. Dois outros fatores aproximavam o jornal de “O Pasquim”: um subtítulo diferente para cada edição (sempre bem humorado) e a existência de uma mascote (um cachorro sem nome, conhecido apenas como “Totó”, criado pelo cartunista Lapi).

Ao menos durante o seu primeiro ano de edição, Bolão mostrou-se majoritariamente dedicado à loteria esportiva, o “bolão” propriamente dito. Dava dicas, locais de apostas e cartelas das rodadas do campeonato brasileiro de futebol, que acompanhavam inúmeros artigos e críticas sobre o esporte bretão, em geral. Pequenas notas e comentários saíam sempre na seção “Sacumé”, que figurava no topo de várias páginas.

Mas, longe de se limitar a resultados, previsões de jogos, análises de escalações e ao colunismo esportivo convencional, Bolão abordava questões mais profundas do futebol. De certa forma, isso pode ser visto como uma tentativa de intelectualizar – e engajar politicamente – a imprensa esportiva; iniciativa rara para a época. Para tanto, o periódico chegou a discutir o esporte como “ópio do povo”, as relações da mulher com o futebol, os truques das loterias esportivas, a matemática aplicada à previsão de resultados, perfis de jogadores e técnicos, a psicanálise frente ao esporte e às apostas, as relações entre o futebol e a religião, aspectos dos campeonatos regionais, a arbitrariedade de cartolas, as atitudes do governo no campo do esporte, o futebol na mídia, doping, entre outros temas, sempre com muito humor crítico. Sua linguagem, essencialmente informal e opinativa, o aproximava da “estética de papo de botequim”, originada n’O Pasquim.

Para ser bem sincero, os articulistas do Bolão eram apresentados como um grupo de amigos (a patota) que nada entendia de futebol, mas que mesmo assim discutia o assunto em tons peculiares. Muito próximos à linguagem oral, alguns títulos de artigos são ilustrativos: “Descansa essa moringa porque o pau vai comer”, “Futebol é jogo pra homem, pô”, “Em São Paulo só ganha quem compra os juízes”, “Afonsinho esculhamba Zagalo”, “Por que não sou Flamengo? Ora, eu sou um intelectual”, etc.). Curiosamente, algumas opiniões sobre o futebol pareciam não caber na publicação: o polêmico articulista Paulo Francis, por exemplo, era avesso à dita “paixão nacional” (alguns dos títulos de seus artigos são “Futebol é o ópio do povo”, “Fiquem com o seu futebol, ignorantes”, entre outros).

A tentativa de intelectualização do futebol pareceu, com o tempo, afastar a publicação de sua temática principal – e de seu caráter mais popular. A partir da edição de nº 20 do semanário, o tema do futebol passou a perder espaço para o humor e a cultura, aproximando mais ainda Bolão de O Pasquim. Mas quem queria O Pasquim ia direto na fonte. As páginas duplas, anteriormente ocupadas pelas palavras a serem usadas nos estádios, perderam espaço para a seção “Sua reserva especial de mulher”. A edição de 1º a 8 de janeiro de 1971 toca tão pouco no tema do futebol e das apostas que a seguinte, se apresenta “De volta às origens (temporariamente)”. Bola fora. Naquele mesmo ano o jornal parece ter deixado de circular.

(Bruno Brasil)

Êste jornal nunca perdeu na loteria - Bolão (O meu jornal preferido)