Ataulfo Alves, na farmácia e na música

sábado, 2 de maio de 2020.
Notícia
Ataulfo Alves, música, Farmácia, Fundação Biblioteca nacional
Nascido em 2 de maio de 1909, em Miraí-MG, Ataulfo Alves de Sousa teve uma infância difícil, mas também de precoce apego ao mundo da música. Ainda pequeno, já improvisava repentes e tocava instrumentos musicais, como a sanfona e a viola. Perdeu o pai aos 10 anos e, após o período escolar diário, trabalhava como condutor de bois, menino de recados, carregador de malas, dentre outros, para ajudar a mãe a sustentar os irmãos.

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Ataulfo Alves, destaque na revista A Cigarra de 1952.
Ataulfo Alves, destaque na revista A Cigarra de 1952.

Aos 18 anos, seguiu com o médico amigo da família, Afrânio Moreira de Resende, para o Rio de Janeiro. Auxiliaria o médico em seu consultório e no cuidado de sua residência. Posteriormente, empregou-se na Farmácia do Povo, no Centro da cidade, e passou a dividir-se entre a atividade de prático em farmácia e seus dotes musicais, frequentando rodas de samba.

Destaque em uma longa reportagem, na revista A Cigarra de 1952 Alves conta que iniciaria sua carreira modestamente, alternando seu trabalho na farmácia e compondo músicas com fragmentos de melodias. Naquela farmácia, conheceu uma jovem talentosa e com alma de artista, Maria do Carmo. Confidencia a revista que se tornaram amigos e, quando Maria do Carmo gravou uma de suas composições, sua carreira de compositor deslanchou: a jovem seria ninguém menos que Carmem Miranda.

Sua consagração se deu entre os anos de 1940 e 1950. Considerado um dos reis do carnaval de 1946 (O Cruzeiro), o mineiro trazia para as suas letras o romantismo e o sofrimento causados pelo amor, a liberdade, a alegria do carnaval.

Ai! Que saudade da Amélia (1942), uma de suas maiores composições em parceria com Mário Lago, que retrata o amor incondicional, e até submisso, de uma mulher, foi elogiada na edição de 1947 de A Cigarra. Sete anos depois, em 1949, a canção foi eleita o segundo dentre os dez maiores sambas brasileiros. Ainda hoje, a música é prestigiada em rodas de samba e música popular brasileira.

Montou um grupo musical, chamado Ataulfo Alves e suas Pastoras, com o qual se apresentava em rádios e programas televisivos na década de 1950, especialmente durante o carnaval. O incessante trabalho de criação e divulgação artística levou-o a fazer parte dos elencos de profissionais da música de rádios como a Radio Transmissora Brasileira (PRE-3), em 1942 (Fon Fon)  e da Rádio Guanabara, em 1950 (Revista do Rádio).

Além de compositor, fazia parte das associações de proteção aos direitos autorais para a categoria artística, tendo sido convidado para compor a Diretoria da União Brasileira de Compositores, em 1948, como vice-inspetor atuando no suporte de análise de autorias musicais. Em seu grupo estavam também Lamartine Babo, como secretário, e Dorival Caymmi, como suplente.

Conhecido por sua gentileza e elegância, Alves era constantemente elogiado por seu profissionalismo e pela qualidade das suas composições, como esse trecho sobre a programação da Rádio Transmissora Brasileira, publicado na revista Fon Fon: “Ataulfo Alves, o popularíssimo autor de “Amélia” constitui uma das mais fortes atrações da programação de estúdio da Rádio Transmissora Brasileira. Realmente o conjunto “Ataulfo Alves e suas Pastoras” apresenta um repertório popular digno de aplausos”.

Seus mais de 300 sambas e composições, em parceria com outros compositores como Mário Lago, Wilson Batista, Paulo Gesta, podem ser ouvidos nas vozes de Carmem Miranda, Almirante, Dalva de Oliveira, Orlando Silva, Clara Nunes, Quarteto em Cy. Alguns deles com trechos disponíveis no acervo sonoro da Biblioteca nacional e listados abaixo.

Inicia-se o ano de 1969, e o Jornal do Brasil havia preparado uma entrevista que teria o objetivo de dar notícias de um Ataulfo hospitalizado, mas ainda otimista, e prestes a ser operado. Quadro que , infelizmente, se agravaria dias mais tarde levando ao seu óbito (Jornal do Brasil).

Faleceu vitimado por complicações em uma úlcera que o acompanhou por mais de 20 anos, poucos dias antes de seu sexagésimo aniversário, no dia 20 de abril de 1969. Seu enterro se deu no cemitério do Catumbi, Zona Norte do Rio de Janeiro, com grande tumulto, cenas de desmaio e descontrole de fans (Jornal do Brasil).

(Raquel França dos Santos Ferreira - CPS)