O que fez frei Camilo de Monserrat como bibliotecário e o que lhe deve este grande estabelecimento?

quinta-feira, 23 de abril de 2020.
Notícia
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O que fez frei Camilo de Monserrat como bibliotecário e o que lhe deve este grande estabelecimento?" É o que pergunta Benjamin Franklin Ramiz Galvão no estudo biográfico sobre frei Camilo de Monserrat, publicado nos Anais da Biblioteca Nacional, v. XII.

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Gravura a água-forte feita pelo artista Modesto Brocos, em 1905
Gravura a água-forte feita pelo artista Modesto Brocos, em 1905

Em 23 de abril de 1853, o frei beneditino Camilo de Monserrat (Paris, 1818 – Rio de Janeiro, 1870) foi nomeado bibliotecário da Biblioteca Imperial e Pública da Corte, como era chamada a Biblioteca Nacional à época.

Propôs reformas de ordem técnica relativas à catalogação, organização e registro dos livros. Considerava necessário elaborar um catálogo sistemático da biblioteca, alterar o método de dispor os livros nas estantes, redigir inventários de cada gênero de obras: livros impressos; manuscritos; mapas, planos e estampas; desenhos, pinturas, esculturas e demais objetos de arte.

Durante anos solicitou a reforma do decreto de 1847, pelo qual os impressores da corte deviam remeter à Biblioteca Pública um exemplar de cada impresso publicado. Frei Camilo criticava principalmente a abrangência da obrigação, pois os impressos produzidos nas províncias seriam depositados nas bibliotecas das capitais, privando a Biblioteca Pública desse valioso contingente de publicações.

Ajudou a divulgar a "Flora fluminense", do botânico brasileiro frei José Mariano da Conceição Veloso. Obteve autorização para oferecê-la aos agentes diplomáticos estrangeiros residentes na corte e, em troca, solicitar-lhes obras publicadas em seus países que pudessem enriquecer a coleção da biblioteca.

Dentre as aquisições mais valiosas de sua gestão citam-se as obras permutadas com a "Flora Fluminense" e as coleções Antônio Correa de Lacerda e Pedro de Angelis.

Em 1858, Frei Camillo recebeu as chaves do novo prédio adquirido pelo Governo Imperial para a Biblioteca, localizado à Rua da Lapa – hoje Rua do Passeio, atual Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Depois de três anos de reformas, a nova sede foi inaugurada e aberta ao público, mas não da forma idealizada por frei Camilo: o gás de iluminação não havia sido ligado, não haviam sido feitas as obras necessárias para a segurança das portas dos armários e não fora comprado, como prometido, o terreno contíguo ao jardim da Biblioteca para uma possível ampliação do seu espaço

Jorge Estanislau Xavier Luís Camilo Cléau nasceu em Paris em 14 de novembro de 1818. Filho ilegítimo do duque de Berry e de uma dama italiana da família Malatesta – os Cléau eram seus pais adotivos – Camilo recebeu, desde a infância, lições de História, Filosofia e Literatura Clássica. No entanto, a dificuldade de encontrar uma melhor condição financeira o levou a viajar pelo mundo. Em 1844 se mudou para o Brasil, onde ingressou na Ordem dos Beneditinos.

Em 1847 se tornou noviço, quando assumiu o nome de Camilo de Montserrat. Foi ordenado frei em 1850. No Convento de São Bento, ficou encarregado de organizar a biblioteca da instituição. Mais tarde, o Governo Imperial o nomeou professor de Geografia e História do Colégio Pedro II, cargo que ocupou até 1855, quando pediu demissão para se dedicar às suas obrigações religiosas.

Frei Camilo ainda se dedicou a estudos e pesquisas em História e Arqueologia, publicando alguns trabalhos e coletando dados e notas para futuros projetos não concluídos. Morreu de doença pulmonar em 19 de novembro de 1870, sendo sucedido no posto de bibliotecário por Ramiz Galvão.

A Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional abriga a coleção documental Camilo de Montserrat, com documentos de diversas proveniências. Entre eles se acham cartas escritas e recebidas pelo Frei ao longo de sua vida, desde a juventude até os últimos anos como responsável pela Biblioteca.