Que falta faz a Manchete!

domingo, 26 de abril de 2020.
Notícia
Manchete, televisão
Houve um tempo em que grandes revistas ilustradas semanais faziam a cabeça do brasileiro: tempo pré-televisivo. Pois hoje, uma das maiores que o país já teve faz aniversário.

Manchete foi uma revista semanal de grande circulação, lançada no Rio de Janeiro (RJ) em 26 de abril de 1952, tendo circulado regularmente até 29 de julho de 2000. Criada pelo imigrante ucraniano Adolpho Bloch, fugido da Revolução Russa, a publicação se estabeleceu como principal concorrente da então gigante revista O Cruzeiro, dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, a qual viria a superar.

A origem de Manchete deveu-se a um antigo ofício familiar dos Bloch, devidamente atualizado por Adolpho. Na Ucrânia do início do século XX, a família, de origem judaica, trabalhava com artes gráficas. Joseph Bloch, pai de Adolpho, era dono de uma litotipografia, tendo orientado no ofício seus filhos homens, Adolpho, Arnaldo e Bóris. Apesar das dificuldades na chegada da familia ao Brasil, Adolpho e seus irmãos conseguiram retomar a atividade profissional familiar. Estabeleceram-se no Rio de Janeiro, onde, com os poucos recursos que trouxera consigo, Joseph Bloch estabeleceu um pequeno empreendimento gráfico, no nº 24 da Rua Vieira Fazenda, onde pai e irmãos trabalhavam com pequenas máquinas manuais, imprimindo cartazes, folhetos, boletins e embalagens. Logo cresceram. Adolpho Bloch, à frente do empreendimento junto com os irmãos desde a morte do pai, já contava trinta anos de trabalho no meio gráfico quando, no início dos anos 1950, julgou-se capaz de realizar um plano ambicioso: editar um semanário da linha da revista francesa Paris-Match, para entrar no mercado de revistas ilustradas a cores, liderado, então, por O Cruzeiro.

Em 26 de abril de 1952, aparecia nas bancas de inúmeras cidades brasileiras um semanário de grande apelo visual, trazendo, na capa de sua edição nº 1, uma foto de Orlando Machado, com a bailarina Inês Litowski, do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, posando ao lado de uma carruagem do Museu Imperial. Internamente, a edição vinha com reportagem fotográfica de Jean Manzon, fotógrafo francês que tinha se firmado como o maior fotojornalista do mercado editorial brasileiro – Manzon foi, aliás, um dos responsáveis pelo sucesso de O Cruzeiro. Com redação instalada no prédio da Frei Caneca – que seria mantido como sede do empreendimento dos irmãos até 1968, quando a empresa mudou-se definitivamente para a Rua do Russel, no bairro da Glória –, Adolpho seguiu a fórmula de seus concorrentes, no nicho das revistas ilustradas a cores, porém, dando um passo à frente: investindo na qualidade visual do periódico, o imprimiu por uma rotativa Webendorfer, a primeira offset do Brasil. Algo que contribuiu para o sucesso que Manchete passaria a ter, após uma primeira fase de dificuldades, foi a chegada de Otto Lara Resende à sua redação, em julho de 1954, assumido o cargo de diretor de redação da revista.

Manchete foi, afinal, o órgão fundador do extinto Grupo Manchete, que se estabeleceria de fato em 1983, com o início das transmissões da Rede Manchete de Televisão, composta de cerca de dez emissoras de TV (e dezenas de afiliadas), todas levando o nome do periódico impresso. Foi em paralelo a essa expansão comercial dos negócios de Adolpho Bloch e sua família, nos anos 1980, que o semanário – com seu slogan ''Aconteceu, virou Manchete'' – atingiu seu ápice, firmando-se como verdadeiro fenômeno editorial: chegou a ter tiragem de milhões de exemplares naquele período. Isso, todavia, não durou muito tempo.

Após o fim de sua publicação regular como semanário, marcada pelo fim da Rede Manchete, que puxou à falência a Bloch Editores, em 2000, depois de um longo período de crise deflagrado na década de 1990, Manchete foi adquirida pelo empresário Marcos Dvoskin, e continuou circulando, mas como produto de uma nova empresa, a Manchete Editora. A partir desse momento, a publicação veio a lume esporadicamente, numa espécie de “sobrevida”: a partir de sua edição nº 2.521, de abril de 2001, e até sua edição nº 2.537, de fevereiro de 2007, a revista veio sendo publicada em cerca de três edições por ano, normalmente datadas dos meses que cobriam o carnaval.

Arnaldo Bloch, sobrinho-neto de Adolpho, no livro “Os irmãos Karamabloch: ascensão e queda de um império familiar”, transcreve as seguintes palavras do fundador da revista, proferidas ao fim de sua vida, preservando mesmo o sotaque que nunca perdera. Sob o título “Adolpho não queria”, a fala do mesmo tocava sinceramente no desando dos empreendimentos dos Bloch, em face ao tino comercial implacável de Adolpho:

Eu tinha comprado cinco máquinas na Itália. Cinco Cerutti de última geraçón. Eram 42 mil exemplares por hora, quatro cores, nón é verdade? Se lembra da editora? Ieu tinha 30 milhóns limpos. Mas eles queriam a televisón. Um mês antes da licitaçón ieu estava em Nova York e o sujeito, um tal de Norman Alexander, me convidou pra ir ao escritório da rua 45. A fábrica era uma coisa louca, de alumínio, para latas de refrigerante e cerveja. Era uma novidade, uma revoluçón, e ele, o Norman, queria abrir um escritório de representaçón no Brasil. Aqui as latas eram aquelas merdas, de folhas de flandres. O alumínio era material do futuro. Pedi uma semana para responder, mas, quando voltei, o general [João Baptista Figueiredo], o puto dos cavalos, já estava fazendo tudo e entramos na concorrência da tevê. Se ieu pegasse as latas hoje seríamos bilionários. Mas o que é que ieu ia fazer? O Jaquito queria a televisón. O Oscar queria. Ieu nón queria. Mas fiz. Hoje acordo e nón quero nem ver a luz do sol. (p. 260)

(Bruno Brasil – CPS)