Quarentena e Isolamento: A Peste Negra e a origem da Quarentena em Veneza

sexta-feira, 17 de abril de 2020.
Notícia
Em tempos de pandemia, experiência única que nossa geração vivencia, estamos a todo momento entrando em contato com conceitos como quarentena e isolamento social como medidas de segurança para contenção do contágio.

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Vista tradicional de embarcações às margens de Veneza
Vista tradicional de embarcações às margens de Veneza

Em primeiro lugar, é válido fazer uma sútil diferenciação entre essas medidas que foram utilizadas por diversas vezes indiscriminadamente ao longo da história como recursos de controle de contaminação de doenças infecciosas.

A quarentena seria um isolamento profilático, preventivo. Quando uma pessoa é colocada em quarentena ela está, em princípio, sadia, não apresentando quaisquer sintomas da doença com a qual possa ter tido contato diretamente com um doente, ou indiretamente, por exemplo, ao ter permanecido em local de surto de uma determinada doença. Mesmo assintomática, na quarentena a pessoa é colocada em reclusão, afastada do restante da população, como medida de cautela até que seja certificada a integridade de sua saúde.

Já o isolamento seria uma medida aplicada a pessoa comprovadamente doente para tratamento e restabelecimento do seu quadro e saúde e que, consequentemente, evitaria a contaminação de outras pessoas saudáveis de seu convívio.

A Peste Negra e a origem da Quarentena em Veneza

Trazemos aqui hoje a histórica cidade comercial e das artes de Veneza. A peste negra atingiu a cidade, um dos principais portos das rotas comerciais, em inúmeras epidemias ao longo dos séculos, tendo ocorrido mais de 20 vezes entre 1361 e 1528.

A peste negra foi uma pandemia que assolou pelo menos 1/3 da população europeia e que teve seu epicentro na Ásia, assim como a pandemia de COVID-19 que vivemos atualmente. A propagação da doença pela Europa se deu pelas rotas comerciais oriundas da Ásia, principalmente através do Mar Mediterrâneo da qual o porto de Veneza era uma parada.

A Peste Negra, por vezes denominada Bubônica, era uma doença extremamente agressiva e dolorosa, levando o infectado a óbito em no máximo cinco dias. Em princípio, o contágio se dava por uma bactéria transmitida por pulgas que, por sua vez, era transportada em roedores. As precárias condições sanitárias e de higiene também corroboravam para um ambiente propício para propagação desta doença infecciosa.

Em 1630, durante mais um surto de peste em Veneza, o senado de Veneza decretou a construção de uma nova igreja, a Chiesa della Madonna della Salute, templo dedicado a Virgem Maria, protetora da república, pois acreditam que mais uma vez a religião os salvariam. E assim foi feito. A igreja foi construída entre o Grand Canal e o canal da Giudecca e é o centro de uma das festas da cidade que comemora o fim da Peste Negra, em 21 de novembro. 

Mais sobre a Igreja de Nossa Senhora da Saúde em Veneza pode ser visto em nosso acervo na BNDigital.

O pioneirismo atribuído a Veneza está na prática da quarentena de quarenta dias, período durante o qual os barcos deveriam permanecer isolados antes que seus passageiros e tripulantes desembarcassem em seus portos, respondendo a uma medida profilática para contenção do avanço da Peste Negra. A origem da palavra quarentena é vêneta. Contudo, as fontes consultadas divergem quanto à data em que essa prática teria sido iniciada, mas convergem quanto ao fato de ser ela de origem veneziana. A quarentena, de quaranta giorni, teria sido inspirada na prática de isolamento de trinta dias praticada no porto de Ragusa (atual cidade de Dubrovnik, na Croácia) ainda no século XIV. A quarentena mostrou-se muito eficiente como medida para conter a propagação da Peste Negra e tornou-se uma das práticas mais tradicionais de saúde pública.

(Diana Ramos)

Na imagem, vista tradicional de embarcações às margens de Veneza. Trata-se de uma gravura em buril e água-forte do inglês James Charles Armytage que reproduz pintura de Joseph Mallord William Turner “Venice, the Bridge of Sighs” de 1840, atualmente na Tate, de Londres.

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