Quarentena e isolamento: O Cais do Valongo, quarentena longe do centro urbano do Rio

sexta-feira, 17 de abril de 2020.
Notícia
quarentena, isolamento
A quarentena como prática de saúde pública é tradicional e tem sua origem, pelo menos quanto ao período que deu origem ao termo, em Veneza de tempos da Peste Negra. Em épocas mais modernas, o período de reclusão varia de acordo com o período de incubação de determinada doença, com a finalidade de frear a contaminação. A quarentena compreenderia o tempo entre o contato com o agente infeccioso e a manifestação dos sintomas da respectiva doença.

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Cais da Imperatriz e do bairro da Saúde
Cais da Imperatriz e do bairro da Saúde

O Cais do Valongo foi um importante atracadouro do Rio de Janeiro para o tráfico negreiro no século XIX. A descoberta desse espaço de memória é muito recente. Aconteceu por ocasião das obras de revitalização da região portuária do município do Rio de Janeiro. Atualmente Sítio arqueológico do Cais do Valongo, é Patrimônio Histórico da Humanidade pela UNESCO desde 2017 sendo o único vestígio material deste sistema estrutural na formação de nossa sociedade.

Na região do Valongo, entre a Pedra do Sal e a Gamboa, já acontecia a comercialização dos escravizados, para onde tinha sido desviado por ordem do Vice-Rei Marquês do Lavradio em 1774 da Alfândega na região da atual Praça XV e das principais vias públicas do centro da cidade do Rio de Janeiro quando determinou que o mercado acontecesse “fora dos limites da cidade”. A história do Cais do Valongo remonta a 1811, quando foi construído para comércio dos escravizados africanos que desembarcavam neste porto. Funcionou para essa finalidade até 1831, quando foi promulgada a primeira lei proibindo o tráfico transatlântico de escravos que não deixou de acontecer, tendo sido deslocado para portos clandestinos mais remotos.

A mudança do mercado de escravizados para a região do Valongo com a posterior construção do cais atendeu a um propósito de salubridade do centro urbano da cidade. Os recém-chegados estariam isolados e assim reduziriam as possibilidades de contaminar os habitantes da cidade, pois permaneceriam na região do Valongo em barracões, tratados como quaisquer outros produtos de mercado, em condições insalubres e desumanas, até seguirem pelo mar, na maioria das vezes, para seu destino final. Em galpões e sobrados da região, muitos escravizados que chegavam debilitados, desidratados e doentes eram alimentados e curados de suas doenças a fim de se recuperarem e adquirir melhor aparência para elevar seu valor de venda. Quando não resistiam, contavam com o Cemitério dos Pretos Novos, nas proximidades, pois era alta a taxa de mortalidade entre a chegada, a quarentena e a exposição para venda no mercado de escravos.

O Cais do Valongo sofreu intervenções ainda no século XIX, em 1843, por ocasião da chegada da princesa Teresa Cristina, que viria a se casar com D. Pedro II e nominar a coleção que este doou a Fundação Biblioteca Nacional. Por esse evento, o cais foi rebatizado e passou a ser conhecido como Cais da Imperatriz.

Já no início do século XX, durante a reforma urbana de Pereira Passos o Cais do Valongo foi soterrado e esquecido por mais de cem anos. Somente em 2011, nas obras de drenagem e escavações do Porto Maravilha, os Cais do Valongo e da Imperatriz foram descobertos, assim como diversos artefatos arqueológicos.

(Diana Ramos)

Na imagem selecionada temos duas vistas panorâmicas em litogravura do século XIX de Frederico Pustkow editada G. Leuzinger: Cais da Imperatriz e do bairro da Saúde.