Pixinguinha e os Oito Batutas

quinta-feira, 23 de abril de 2020.
Notícia
Choro, Pixinguinha, Grupo Oito Batutas, Fundação Biblioteca nacional
Nacional é Pixinguinha (1897-1973). A data, 23 de abril, é o dia do seu aniversário. Não foi o primeiro chorão, título que se deve a Joaquim Callado (1848-1880), criador do grupo Choro Carioca, lá pela década de 1870. Naquele tempo, “Choro” designava tanto o conjunto musical como as festas onde estes conjuntos se apresentavam. Nasceu no Rio de Janeiro como uma música popular que “abrasileirou” a música europeia misturando-a com a tradição afro-brasileira. Na década de 1920, quando Pixinguinha, Alfredo da Rocha Vianna Filho, flautista, saxofonista, compositor, arranjador e orquestrador genial, começava a ser referência no estilo é que o Choro se consolidou como gênero musical.

A trajetória de Pixinguinha se confunde com a publicização do Choro. Criado no Catumbi, bairro do Rio de janeiro, seu pai, Alfredo da Rocha Vianna, tinha uma pensão e era conhecido por promover saraus com grandes músicos da época: João Pernambuco, Sátiro Bilhar, Irineu de Almeida (professor de Pixinguinha), Heitor Villa-Lobos, entre outros.  Começou a compor na década de 1910 e criou o grupo Caxangá em 1914.  O nome vinha da música “Cabocla de Caxangá” de João Pernambuco e Catullo da Paixão Cearense. O grupo se apresentava, como era moda popular na época, com trajes nordestinos e chapéu de palha. Fazia muito sucesso no carnaval, tanto que chamou a atenção do gerente do cinema Palais, Isaac Frankel. Foram convidados por ele para montar uma pequena orquestra com oito integrantes para se apresentarem na antessala do cinema, como era costume na época. Assim nasceu os Oito Batutas.

A foto que ilustra o post é da primeira formação dos Oito Batutas, como eles se apresentaram na estreia, ainda segundo a onda nordestina, quando o cinema Palais reabriu após o surto da gripe espanhola, em 1919. Figuram na foto, em pé, da direita para esquerda: Pixinguinha (flauta), Donga (violão), Raul Palmieri (violão), China (voz e violão), Jacob Palmieri (ganzá); sentados, da direita para esquerda: Nelson Alves (cavaquinho), João Pernambuco (violão), Luis de Oliveira (bandola).

 O grupo Oito batutas foi um sucesso de público. Apesar de algumas críticas na imprensa pelo seu repertório e trajes populares e o preconceito com relação aos seus integrantes negros, conquistou uma plateia ilustre. Rui Barbosa, Ernesto Nazareth e o empresário milionário Arnaldo Guinle eram fãs. Mudaram os trajes nordestinos e passaram a se apresentar em saraus na mansão Guinle, onde hoje é o Palácio Laranjeiras, residência oficial do governador do Rio de Janeiro. De 1919 até o ano seguinte, Arnaldo Guinle patrocinou uma turnê dos Oito Batutas pelo Brasil. O objetivo era não só fazer apresentações musicais, mas recolher e documentar ritmos do folclore brasileiro nas cidades. Além da troca de experiências musicais, o choro carioca foi tornando-se conhecido pelo Brasil. Na volta, apresentaram-se em operetas no Teatro São Pedro (atual João Caetano), no Teatro Recreio, fizeram turnês com o teatro pelo Brasil. Apresentaram-se até na residência do presidente Epitacio Pessoa em 1921.

Consagrados no Brasil, no ano seguinte partiram para Europa. Convidados pelo bailarino Duque, o rei do maxixe, que já fazia sucesso na Europa com a dança excomungada, o grupo foi se apresentar no dancing Sheherazade, em Paris. Novamente foram patrocinados por Arnaldo Guinle. Tocaram em várias outras casas noturnas, com Jazz-Bands, e até se apresentaram para a família imperial brasileira que estava em Paris desde o fim da monarquia.

Ainda em 1922, Os Oito Batutas participaram da primeira transmissão de rádio no Brasil, feita na Exposição do Centenário da Independência. Em 1923, os Oito Batutas tomaram a forma de uma Jazz Band, mas não abandonaram as execuções de choro. Fizeram parte da Companhia Negra de Revistas, única exclusiva de artistas negros, onde Pixinguinha era orquestrador e regente. Em 1927 passaram a se apresentar no Cinema Odeon, acompanhando um casal de dançarinos norte-americanos. No ano seguinte tornaram-se atração fixa do restaurante Assírius, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, até 1931 quando o grupo se dissolveu.

Durante sua carreira, Pixinguinha apresentava-se em rádios, como a Mayrink Veiga, divulgando a música brasileira (Fon Fon, 1938) e participava de festivais, como o da Velha Guarda em São Paulo (Radiolândia, 1954).

E não só de choro vivia Pixinguinha. A marcha carnavalesca Carnavá tá ahi, também disponível no acervo da Biblioteca Nacional, tem sua autoria.

Passou grande parte de sua vida em Ramos, subúrbio carioca, vindo a falecer em fevereiro de 1973 (Diário da Noite, 1973), tendo seu sepultamento em Inhaúma, na Zona Norte do Rio de Janeiro. 

A Biblioteca Nacional possui a segunda gravação do choro “Oito Batutas”, em homenagem ao grupo, com Benedito Lacerda (1903-1958). Seu maior parceiro, com ele gravou 17 discos.  

A Biblioteca Nacional tem, em seu acervo sonoro, inúmeras composições de choro, dos Oito Batutas e outros músicos: Acerta o Passo, Carinhoso, Displicente e Não Posso Mais.