Imprensa negra e abolicionista no acervo da Biblioteca Nacional

quarta-feira, 15 de abril de 2020.
Notícia
Imprensa
Você sabia que, em 2018, 38 periódicos do acervo da Biblioteca Nacional foram laureados na etapa brasileira do Registro Memória do Mundo, promovido pela UNESCO?

Tais periódicos possuem um recorte específico: são aqueles identificados como os cinco primeiros jornais da imprensa negra brasileira, todos de duração efêmera, datados de 1833; 31 publicações abolicionistas editadas no país entre 1871 e 1888, e dois jornais da imprensa negra pós-Abolição, lançados no século XIX. Quase tudo digitalizado na hemeroteca digital.

O surgimento dos pioneiros da imprensa negra esteve contextualizado com a proliferação de pasquins de crítica política entre o fim do Primeiro Reinado e o início da Regência, no início da década de 1830. O primeiro, O Homem de Côr, da Typographia Fluminense, depois notabilizada pela revelação de Machado de Assis, inspirou as folhas liberais O Cabrito e O Meia Cara, e também Brasileiro Pardo e O Lafuente, defensoras do Primeiro Reinado. Décadas depois, sociedades abolicionistas passaram a editar periódicos de propaganda, em diversas províncias. Sua causa, todavia, também se imprimia em folhas para o público em geral: caso da Cidade do Rio, de José do Patrocínio, e da Gazeta da Tarde, de Ferreira de Meneses, ambos negros.

Tal coleção é única e insubstituível não só pelo que representa no sentido da memória do engajamento político e emancipatório da (e em torno da) população negra, mas também pelo fato de que constituem um conjunto que só pode ser acessado através da Fundação Biblioteca Nacional. Seu lugar deve ser de destaque numa sociedade engajada na luta contra o racismo, bem como preocupada em estudar processos históricos cruciais para o desenvolvimento de um mundo democrático.

Os periódicos aqui reunidos, afinal, tiveram impacto em seu tempo e além. Influenciaram o processo de Abolição da Escravatura décadas antes da assinatura da Lei Áurea, sinalizando o logro de pressões da sociedade civil sobre o Estado imperial. Fora isso, a visão sobre seu conjunto desponta complexidade ímpar, que na atualidade vale ser lembrada: ao mesmo tempo em que alguns desses jornais eram editados por negros, preocupados com os impactos da escravidão sobre a população negra sob um viés humanitário, outros eram editados por brancos de elite, liberais, preocupados com os desdobramentos da manutenção da economia escravocrata em relação ao posicionamento do Brasil na política e no mercado internacional.

(Bruno Brasil)