Na gripe espanhola, o “Chá da Meia-Noite na Casa do Diabo”

domingo, 26 de abril de 2020.
Notícia
gripe espanhola, doenças, epidemias, Fundação Biblioteca nacional
A epidemia de febre espanhola de 1918 evidenciou a precariedade da saúde pública do país, criou lendas e inspirou o carnaval. No Rio de Janeiro, cidade mais atingida, são já conhecidos os relatos de superlotações de cemitérios e cadáveres na rua aguardando a remoção. Nos poucos hospitais existentes, incapazes de atender toda a população, a situação também era calamitosa.

A Santa Casa da Misericórdia, que comportava a maior parte da assistência gratuita da cidade e que, em tempos normais, já vivia lotada e em condições precárias, viu a situação se agravar e muito com a epidemia e o aumento de doentes e internados. Superlotada, sem leitos suficientes, sem remédios, sem alimentação e desprovida de condições de higiene, foi alvo de diversas denúncias na imprensa. sendo chamada até mesmo pela alcunha de Casa do Diabo. Em 16 de outubro já se anunciava a falta de leitos. Após uma vistoria do Governo, com visita do próprio Presidente, acabou-se por proibir a entrada de novos doentes na Santa Casa. 

A quantidade de doentes que, no auge da epidemia, só saíam mortos do hospital acabou por criar o boato de que um veneno letal era administrado aos doentes ditos moribundos para que vagas fossem liberadas. Servido na forma de chá, o suposto remédio fatal ficou imortalizado na memória popular como o "chá da meia-noite". E virou até carro alegórico no carnaval do ano seguinte.

Carnaval este que é muitas vezes considerado o mais animado da história da cidade. Como se o Rio renascesse após o luto e todo o sofrimento da epidemia que, claro, foi lembrada em desfiles e marchinhas. Já em janeiro de 1919 os bailes tomavam conta da cidade e o Correio da Manhã avisava: "quem não morreu da hespanhola, quem della pôde escapar, não dá mais tratos à bola, toca a rir, toca a brincar... A quadra não é de prantos! Tragam nos labios sorrisos pois já por todos os cantos se ouve a musica dos guisos".

Bailes em clubes, nas praças e coretos, batahas de confete, corsos de automóveis, desfiles de blocos, banho de mar à fantasia, por toda a cidade a população se divertia e extravasava. Se poucos meses antes era motivo de medo, agora a gripe espanhola estava presente em músicas e fantasias, em tom jocoso e de crítica. O Chá da Meia-Noite virou nome de um bloco criado em Honório Gurgel, assim como de uma música do compositor Baiano e de um espetáculo de revista . E esteve presente também no desfile das grandes sociedades, organizações carnavalescas com carros, alas e alegorias que desfilavam no centro da cidade. Os Democráticos, a maior de todas as sociedades, que em 1919 comemorava 50 anos, trazia um carro alegórico em forma de xícara servindo o chá da meia-noite. (foto). E em seu programa do desfile, contava:

"Estão lembrados senhores
Desse chá famigerado?
Isso foi no anno passado,
Num mez de grandes horrores...
A Santa Casa da Miséria e Corda
Poz muita gente do sepulchro à borda...
"O chá da meia noite"
Foi caminho mais curto pra morte
Do pobre desgraçado, dos "sem sorte"

O chá marcou a época tristonha
E o ZÉ POVINHO mesmo ardendo em basa
Queimado pela febre má, bisonha,
Escomungou, de vez, a Santa Casa!"

(Maria Angélica Bouzada)