Conheça o tataravô dos memes: o pasquim O Carcundão

segunda-feira, 13 de abril de 2020.
Notícia
Já ouviu falar dele? O Carcundão foi um pasquim de sátira política, de tendência antiabsolutista e anticlerical. Surgiu há quase 190 anos, no Recife (PE), em 1831, através da Typographia Fidedigna, localizada no nº 18 da Rua das Flores

Criado poucos dias após a abdicação de D. Pedro I, ocorrida no dia 7 de abril, atacava justamente aqueles que defendiam o retorno do monarca ao trono, os chamados restauradores, em especial aqueles participantes da Sociedade Colunas do Trono e do Altar: “corcunda” era, aliás, um tratamento pejorativo brasileiro para portugueses simpáticos ao absolutismo. Apesar de ter lançado apenas três edições, sempre ao preço de 40 réis – a derradeira datada de 16 de maio daquele ano –, O Carcundão é lembrado por ter sido o primeiro periódico brasileiro a publicar uma gravura produzida exclusivamente para suas edições, sendo, ainda, a primeira publicação de humor gráfico do Brasil. Tal imagem, que aparece como vinheta das três edições do periódico, era a de uma criatura corcunda, semelhante a um burro, ao lado de uma coluna grega que, quebrada, despenca sobre seu corpo – referência antilusitana que tocava explicitamente nas Colunas do Trono.

Em sua sátira, O Carcundão era redigido por uma figura “corcunda”, ou seja, absolutista. Dizia ela, em seu nº 1:

Da-se maior insolência! Ousar comparar nossa epoca degenerada à Idade d’ouro, em quanto só contemplamos em toda a parte Reis legítimos destronisados por seos subditos rebeldes, e colônias emancipadas a despeito da obediência que ellas devem a suas metrópoles! Um papeluxo incendiário surge do infernal abysmo, e, calcando aos pés o Trono e o Altar, se atreve a comparar a torrente destruidora, que devasta em seo curso assolador nossas antigas e caras instituições a um manso regato, que fertilisa o nosso lamentado, e empobrecido El Dourado. O fel e o vinagre, que nos dão de beber os infames demagogos, são ironicamente chamados mel e leite pelo execrando Liberalão. Ó vergonha!!! Ó confuzão!!! Ó raiva!!! (...) queimemos, degolemos, esfolemos, estrangulemos esses calangros indignos que pertendem sacudir o jugo da antiga escravidão, abolir nossos privilégios, vilipendiar seos antepassados, e proclamar a soberania do povo.

 

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