Brasil, 1974: uma epidemia de norte a sul

domingo, 26 de abril de 2020.
Notícia
Meningite, doenças, epidemias
Começou com um caso ali, outro aqui. Nenhuma novidade. Mas aos poucos a coisa foi tomando outras proporções. Era necessário agir, rápido. O epicentro do surto era São Paulo. Pessoas estavam morrendo, leitos faltando nos hospitais. Sem falar em quem estava em quarentena. A vacina era produzida às pressas – mas quando viesse, não daria para todo mundo. Estamos em meio à epidemia de meningite meningocócica no Brasil, em meados de 1974.

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Brasil tenta fabricar já vacina  contra meningite - Jornal do Brasil
Brasil tenta fabricar já vacina contra meningite - Jornal do Brasil

A maior surto de meningite da história do Brasil começou, na verdade, em 1971. Dava-se pela infecção pelo sorotipo C da bactéria Neisseria meningitidis. Em 1974, quando a situação atingiu níveis sem precedentes, o vilão era o sorotipo A da mesma meningite. Isso talvez soasse como mero detalhe científico. No dia-a-dia, escolas foram fechadas. Pessoas entravam em pânico. Eventos eram cancelados ou alterados – como os Jogos Pan-Americanos que aconteceriam em São Paulo em 1975, que acabaram na Cidade do México.

Apesar das restrições do governo militar na divulgação de informações, parte da imprensa cobriu a epidemia. Foi o caso do carioca Jornal do Brasil, à época um dos melhores do país.

No início de 1974, o JB veio noticiando casos que pipocavam em São Paulo, Minas Gerais, Ceará, Rio Grande do Sul, Goiás e Brasília. Normalmente em pequenas notícias enviadas por sucursais. Até que, numa tímida matéria, num canto da página 14 da edição de 1° de junho, um título preocupante chamava a atenção: “Meningite aumenta 90% nos primeiros 5 meses”. Daí em diante, so tragédia. Ao longo de junho, informava-se que o número de infecções em São Paulo vinha aumentando. O assunto enfim ganhava a capa do JB em 8 de julho, embora ofuscado pela conquista alemã da Copa do Mundo daquale ano. Ao lado de um sorridente Beckenbauer, a manchete: “Meningite está matando 18 por dia em São Paulo”.

Em 14 de julho, noticia-se que o hospital de referência em São Paulo, o Emílio Ribas, que já vinha se mostrando saturado desde o início do mês, atingia recorde de internações. No dia 21, o tema chegava afinal o editorial do jornal, intitulado “Tutela do silêncio”. Lê-se: “Arma-se o noticiário como meio de advertência, para que as autoridades incumbidas da Saúde Pública se movimentem. Inútil. Em vez da ação pronta, temos o silêncio ou a negativa formal”.

Em 26 de julho, dando a notícia de que a vacina só estaria disponível no mês seguinte, através de 226 mil doses recebidas de um laboratório francês, o jornal ressaltava que “o Brasil é o país que atualmente apresenta o maior surto de meningite em todo o mundo”. E o auge da epidemia viria só em setembro daquele ano.

(Bruno Brasil)