Biblioteca Nacional recebe doação do livro “128 diários – o tempo é alfinete”, de Joaquim Paiva.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018.
Evento
fotografia, coleção
A Biblioteca Nacional recebeu ontem, como doação, o livro “128 diários – o tempo é alfinete”, do fotógrafo, colecionador e diplomata Joaquim Paiva. Em cerimônia no gabinete da presidência, o autor apresentou a obra à diretoria e funcionários da Biblioteca Nacional (BN) e convidados, como o fotógrafo Pedro Vasquez.

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30 de outubro de 2018 - Joaquim Marçal, Helena Severo e Joaquim Paiva no Gabinete da Biblioteca Nacional por ocasião da entrega do livro “128 diários – o tempo é alfinete”.
30 de outubro de 2018 - Joaquim Marçal, Helena Severo e Joaquim Paiva no Gabinete da Biblioteca Nacional por ocasião da entrega do livro “128 diários – o tempo é alfinete”.

A presidente da BN, Helena Severo, reforçou a necessidade de se estimular no Brasil as doações e as parcerias entre o público e a sociedade. Ela lembrou que os acervos das grandes instituições culturais americanas são compostos a partir de doações. “Não é uma tradição na cultura brasileira, mas isso precisa ser revertido ao longo do tempo”.

Joaquim Paiva que, além de fotógrafo, possui a maior coleção de fotografias do Brasil, explicou que faz diários há 20 anos – está no 147º e o livro contempla os 128 primeiros. “São relatos íntimos de vida, com fotografias, colagens, desenhos, textos e citações. Passei três meses escolhendo as páginas que entrariam no livro. O critério foi a diversidade de conteúdo e a visibilidade, pois se trata de uma arte visual, a fotografia”, explicou. “Não faço fofoca, são relatos. É um livro também sobre o tempo que passa”.

O pesquisador da BN Joaquim Marçal, amigo e companheiro de trabalhos do autor, também lembrou a importância de se fazer o depósito legal de obras, especialmente entre pequenos editores e artistas: “muitos hoje fazem auto publicação e não têm consciência da importância de depositar um exemplar na BN. Não é tão fácil também, para eles, bancar um exemplar apenas para o depósito legal, mas é muito importante que a BN tenha um exemplar de cada publicação do país”.

Para Maria Eduarda Marques, o livro é uma obra de arte que dialoga com a produção de livros de arte que são objetos artísticos – conforme a expressão de Ferreira Gullar –, e não objetos.

A apresentação do livro conta com texto assinado por Sergio Barcellos:

Em suas páginas, desfilam dúvidas e certezas, esperanças e promessas. A determinação de “não (...) viver uma paixão em abstrato” dialoga com a conclusão de que “a vida espeta, o tempo é alfinete”.  A percepção do corpo e do espaço por ele ocupado também desponta com frequência nas entradas do diário. Seja quando os sentidos se expressam e remetem ao corpo e à luz que revela odor em vez de desvelar a imagem: “sinto o cheiro do meu suor sob a luz deste abajur”, ou na constatação de ser “vários”. Uma multiplicidade que, cumprida a promessa, espalhar-se-á sobre a cidade:

“Quero que minhas cinzas sejam jogadas do alto do Corcovado”. Para além de sua belíssima e por vezes pungente visualidade e cromatismo, para além de suas palavras ora luminosas, ora oblíquas e embargadas, como quando ameaça a integridade de seus diários (ou de suas personas?), “rasgarei todos esses papéis”, ressona outras vozes a se questionarem sobre o tempo, o belo e a vida: “O tempo é sempre o supremo limite”, reflete com Quiroga. Traz ainda os ecos de Henry Miller, Antonio Cisneros, Léon Ferrari, Artur Barrios, Guimarães Rosa... vê a fractal lágrima do Capitão Ahab se juntar ao mar (o “mar salgado” de Pessoa). Paiva decreta num momento: “O tempo me vence”. “I die everyday”. Artista alemão, no pateo del retiro, em Madrid. “A noite é curta para me aliviar”.

30 de outubro de 2018 - Joaquim Paiva autografa sua obra “128 diários – o tempo é alfinete”.
30 de outubro de 2018 - Joaquim Marçal, Helena Severo e Joaquim Paiva no Gabinete da Biblioteca Nacional por ocasião da entrega do livro “128 diários – o tempo é alfinete”.