José Miguel Wisnik falou sobre a canção no Brasil e analisou obras de Chico Buarque

terça-feira, 5 de setembro de 2017.
Evento
música, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, música popular
O “multitalentoso” José Miguel Wisnik foi o convidado do Programa Diálogos da última quinta-feira, 31 de agosto. A jornalista Helena Celestino, que faz a apresentação das edições do projeto, citou algumas das habilidades e credenciais de Wisnik logo no início: “dá aula de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo, escreve regularmente ensaios sobre música e literatura, é autor de ‘O som e o sentido - Uma outra história das músicas’, e ‘Veneno remédio - O futebol e o Brasil’, faz música para cinema (Terra Estrangeira, de Walter Salles e Daniela Thomas), teatro (As Boas, Hamlet e Mistérios Gozosos para o Teatro Oficina, e Pentesiléias, de Daniela Thomas) e dança”.

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31 de agosto - José Miguel Wisnik na Biblioteca Nacional.
31 de agosto - José Miguel Wisnik na Biblioteca Nacional.

José Miguel Wisnik começou falando sobre a tradição brasileira da canção, “gênero híbrido de palavra e música”. Segundo o autor, “os ‘poetas da canção’ conseguem estabelecer uma relação muito íntima entre a palavra e a música”. Lembrou o desafio do poeta-compositor que precisa casar as palavras – considerando a prosódia – na estrutura de frases musicais, por vezes complexas, para gerar melodias letradas que soem bem aos ouvidos do público, tarefa que representa verdadeiro desafio.

Lembrou ainda que o Brasil é comprovadamente um país de baixo letramento médio: “lemos pouco, muito menos do que em outros países. Por isso, patinamos em um pântano de esquecimento e ‘desmemória’. Talvez por esse motivo, a canção conte com maior receptividade do público, estabelecendo uma espécie de ponte com a literatura.

Um dos primeiros a realizar esse casamento entre esses gêneros foi Vinícius de Moraes, poeta consagrado em livro, que depois virou compositor. Já Chico Buarque, fez o caminho inverso: após ser anos consagrado como compositor, passou a escrever livros. Wisnik citou diversos exemplos de compositores que são filósofos, poetas e escritores, entre outros, como Atonio Cícero, Paulo Leminski e Arnaldo Antunes.

Em seguida, José Miguel Wisnik passou à análise de obras musicais de Chico Buarque e não fugiu da polêmica recente envolvendo a canção Tua Cantiga do novo álbum Caravanas com os versos “Quando teu coração suplicar/Ou quando teu capricho exigir/Largo mulher e filhos e de joelhos vou te seguir”. O trecho ‘largo mulher e filhos’ foi muito criticado, tendo rendido ao compositor o rótulo de ‘machista’ em redes sociais e blogs. Para Wisnik, este tipo de leitura é um grande engano: “a música conta a história de um amor que não tem limites; quando escutamos, aceitamos seu caráter lúdico dentro das possibilidades sugeridas. Quem julgará esse gesto moralmente? Essas coisas não são suscetíveis de serem aplainadas na régua de uma moral única”.

O palestrante passou depois à análise de Caravanas, música que traça um paralelo entre a tensão centro-periferia na cidade do Rio de Janeiro e nos países europeus – com a rejeição/alijamento dos imigrantes muçulmanos: “Não há barreira que retenha esses estranhos/Suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho”. Uma leitura mais detida da letra revela que os porões de navios negreiros são comparados aos cárceres e prisões da atualidade na cidade do Rio de Janeiro.

Analisou ainda a música Mulher do fim do mundo, de Romulo Fróes e Alice Coutinho, cantada por Elza Soares, definindo sua interpretação assim: “cada sílaba é um parto de dor e gozo”. Destacou que o acompanhamento dessa canção utiliza um recurso musical chamado de ostinato, em que uma frase ou ideia musical é utilizada repetidamente, “até que a música voa embalada pela voz de Elza Soares”.

Por fim, após tocar bela versão musicada de um poema de Gregório de Matos em seu teclado, respondeu às perguntas da plateia. Destacou um aspecto preocupante da difusão da música via internet e aplicativos especializados (com seus algoritmos de flow e seleção musical): “acreditou-se que a internet, com suas amplas possibilidades e alcance, iria abrir muito mais o repertório do ouvinte, mas a conclusão é que, na realidade, há um achatamento e estreitamento que é quase uma alegoria do estado do mundo atualmente”.