Eduardo da Cruz e o discurso feminista nos periódicos da colônia portuguesa no início do século XX

quarta-feira, 12 de julho de 2017.
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Em tempos como o nosso, no qual as correntes migratórias e a luta feminista por direitos e visibilidade são assuntos cotidianos e estão em debate na mídia, o pesquisador Eduardo da Cruz, bolsista do Programa de Apoio à Pesquisa da Biblioteca Nacional 2016, propõe-se a dar visibilidade ao discurso feminista das mulheres de imigrantes portugueses no início do século XX, publicado em periódicos que eram mantidos pela colônia portuguesa no Brasil.

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O pesquisador do Eduardo da Cruz do Programa de Apoio à Pesquisa da Biblioteca Nacional dá visibilidade ao discurso feminista das mulheres de imigrantes.
O pesquisador do Eduardo da Cruz do Programa de Apoio à Pesquisa da Biblioteca Nacional dá visibilidade ao discurso feminista das mulheres de imigrantes.

A Biblioteca Nacional, repositório da memória brasileira, guarda um importante acervo de periódicos, do qual fazem parte inúmeros jornais e revistas criados por imigrantes portugueses desde o século XIX, muitos dos quais ainda não foram analisados e devidamente divulgados.

Embora Brasil e Portugal possuam fortes laços históricos e culturais, as relações luso-brasileiras carecem de estudos mais aprofundados. A pesquisa de Eduardo da Cruz pretende valorizar a produção literária e cultural dos imigrantes portugueses no Brasil na Primeira República, tomando a imprensa periódica como fonte primária, em dois sentidos: não apenas como documento textual, mas também como polo fundamental de uma rede de sociabilidade. Trata-se de investigar, nas páginas do jornal Portugal Moderno, a presença do discurso feminista nas ligações entre intelectuais, literatos e imigrantes. Eduardo já vem trabalhando com esse tema há alguns anos, inicialmente a partir do acervo do Real Gabinete Português de Leitura, também no Rio de Janeiro, incluindo logo depois os títulos preservados na Biblioteca Nacional. Portugal Moderno circulou no Rio de Janeiro entre 1899 e 1913.

O pesquisador explica que, "além de trazer informações e debater assuntos diretamente relacionados à vida da colônia imigrante portuguesa no Brasil, como era comum, esse jornal começa, em uma nova fase, a partir de 1909, a dar cada vez mais importância à escrita feminina". Ele destaca a participação nesse jornal de Ana de Castro Osório (1872-1935), escritora portuguesa republicana e feminista. Na fase do jornal por ele analisada, Portugal Moderno valoriza a mulher escritora, o que fica patente quando, ao anunciar, em 1910, que receberá colaboração de literatos portugueses, publica o artigo O problema feminista, de Ana de Castro Osório. No ano seguinte, ao se mudar para o Brasil, acompanhando o marido, ela passa a publicar diversos artigos nessa folha, momento em que cresce a participação feminina nesse jornal, seja assinando colunas e artigos, seja publicando contos e poemas, muitos deles em sintonia com o debate republicano e feminista levantado por Ana de Castro Osório.

O projeto pretende identificar e analisar como o discurso feminista se associa ao do imigrante português no Brasil. Além de levantar parte da obra de Ana de Castro Osório, desconhecida até hoje dos pesquisadores e leitores portugueses e brasileiros, a intenção é trazer à tona um periódico fundamental para se pensar as relações luso-brasileiras, suas estratégias culturais e políticas e a rede de troca intelectual entre os dois países, em suas vozes múltiplas.

Eduardo da Cruz é professor adjunto de Literatura Portuguesa na Uerj, doutor em Literatura Comparada pela UFF, mestre em Ciência da Literatura pela UFRJ e licenciado em Letras pela UERJ. Dedica-se à pesquisa de periódicos oitocentistas luso-brasileiros em atividades vinculadas ao Polo de Pesquisas Luso-Brasileiras do Real Gabinete Português de Leitura, junto ao qual participou como pesquisador do projeto "O Real em Revista". Também tem se dedicado a repensar o campo literário luso-brasileiro a partir de investigações sobre a participação de escritoras em periódicos oitocentistas em projetos ligados a centros de investigação da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.