Entrevista com Anna Faedrich sobre a reedição da obra “Exaltação”, de Albertina Bertha

terça-feira, 12 de abril de 2016.
Entrevista
editoração, Programa Nacional de Apoio à Pesquisa, Programa Nacional de Apoio a Pesquisadores Residentes
A organizadora do livro Exaltação conta como Albertina Bertha, escritora de grande destaque no século XIX, foi apagada da historiografia nos cursos de Letras do país

Resgatar escritoras que se perderam na memória da literatura, durante o processo de sedimentação do cânone literário atual, é o trabalho da pesquisadora Anna Faedrich. Ela, como parte desse trabalho, hoje recupera um texto que foi alijado da historiografia brasileira, o livro Exaltação, de Albertina Bertha. Publicado pela primeira vez em 1916, foi sucesso de público e teve seis novas tiragens, mas pouco depois foi esquecido. A recuperação do livro em nova edição comentada é objeto de parceria entre a Fundação Biblioteca Nacional e a Gradiva Editorial, como parte do Edital de Coedições sem Ônus. O contrato para a publicação foi assinado este mês e a publicação será lançada no róximo dia 15/04  às 16h30, em cerimônia que será realizada no Auditório Machado de Assis, da Biblioteca Nacional.

A escritora Albertina Bertha obteve grande destaque no cenário literário e no jornalismo brasileiros a partir da última década do século XIX, até sua morte, em 1953. Foi uma das protagonistas da escrita feminina de romances e folhetins à época. Teve também participação ativa na imprensa periódica carioca. Realizou ainda estudos filosóficos – foi importante intérprete de Nietzsche – e conferências no Salão do Jornal do Comércio, em uma época em que este ambiente intelectual e literário era eminentemente masculino.

Anna Faedrich não trabalha sozinha na recuperação da literatura produzida por mulheres, mas sim com o grupo de pesquisa da professora Ana Maria Lisboa de Mello, da PUCRS, com o apoio do CNPq. Este é, segundo ela, “um trabalho que só pode ser coletivo e, na medida em que ganhe fôlego, permite repensar nossa história – e nossa história literária – e nossas pequenas e grandes exclusões do dia a dia.” Nessa entrevista ela explica a importância da reedição do livro Exaltação, e de recuperar as obras de nomes importantes da literatura brasileira como o de Albertina Bertha.

Por que Albertina Bertha? E, em meio à sua obra, por que Exaltação? Qual a importância de recuperar este texto no atual contexto social e cultural do país?

Resgatar a memória, em particular nos campos da produção cultural, é uma das formas de desvelar opressões, esquecimentos e exclusões que tornam natural o que é arbitrário. Esse me parece ser o caso da historiografia literária. O alijamento da literatura produzida por mulheres é um desses silenciamentos que operam a reprodução das desigualdades e dos papéis desiguais. Exaltação, publicado em 1916, é o romance de estréia de Albertina Bertha, cujo sucesso editorial resultou em seis novas tiragens. O livro repercutiu na imprensa periódica e foi comentado por muitos escritores e críticos da época, entre eles, Lima Barreto, Araripe Jr. e Monteiro Lobato.

Já foi escrito que Albertina Bertha era liberta de qualquer filiação literária. Será essa a razão pela qual a escritora tem pouco espaço no debate historiográfico brasileiro?

Não. Muitos outros escritores sem filiação literária permaneceram na história da literatura brasileira. Machado de Assis era liberto de filiação literária. Albertina Bertha, assim como as outras escritoras que estão sendo resgatadas por pesquisadores, foi “silenciada” pela historiografia literária, que excluiu esses nomes do cânone literário brasileiro. É um exemplo, entre muitos, das dificuldades de superar as pressões e opressões silenciosas que empurram os portadores de alguns atributos – o gênero, a cor, a origem, as preferências etc. – para se tornarem aquilo que queremos. Mas ela conseguiu se desviar desse destino socialmente prescrito (ser de família rica ajudou), que não costuma reservar às mulheres certos espaços, como o espaço dos debates literários na época em que viveu. Ironicamente, ela não foi excluída em vida, mas o esquecimento foi implacável com a exaltação outrora experimentada por ela.

Quais os motivos de o texto não estar entre os principais do debate historiográfico da literatura brasileira?

O motivo dessa exclusão está muito claro. Mas para responder a esta pergunta, faço outra: por que não conhecemos outras tantas escritoras que deveriam constar nas ementas das disciplinas de literatura nas escolas e faculdades de Letras, mas não constam? Outras tantas escritoras foram vítimas da ideologia patriarcal que excluiu a produção feminina do cânone literário.

Para que público o texto de Albertina fala?          

O preconceito de gênero nos leva a pensar que essas escritoras escreviam exclusivamente para um público feminino. Isso é um erro grave. Albertina Bertha publicou dois livros de estudos sobre filosofia. Leitores de Nietzsche, por exemplo, eram interlocutores dela. Um deles, Lima Barreto. Em um ciclo de conferências no Salão do Jornal do Comércio, entre treze conferencistas, Albertina Bertha era a única mulher. Exaltação é um romance que não agradou o dito “público feminino” da época. As senhoras católicas mandavam queimar na fogueira um livro com tamanha ousadia e teor erótico. Ou seja, não era o público de Albertina.

A escrita de Bertha era biográfica ou trazia componentes biográficos fortes? De que maneira o cotidiano a influenciava? 

A obra literária dela não se quer autobiográfica. É importante reforçar isso, pois os textos escritos por mulheres são vítimas de menosprezo por se atribuir a eles um caráter autobiográfico e intimista. Exaltação é um romance de introspecção, em que o lirismo e a introspecção são meios de revelar a presença do social no texto, que marca uma época e põe em contraste diferentes pontos de vista. O romance ilumina a influência do ambiente social na interioridade do sujeito e, como toda personalidade é socialmente construída, não existe romance introspectivo sem vínculos com a experiência real das autoras. Nele, a protagonista Ladice reconhece a hipocrisia da sociedade, sente-se em desacordo com os preceitos desta e quer ser livre, agir de maneira fiel às suas vontades. A transgressão da personagem é relativa, pois em muitos momentos ela acaba cedendo à norma dominante. Mas o que mais se destaca em Ladice é o seu discurso de inconformidade, avesso ao que se espera de uma mulher na sociedade e na época em que vive. Ela quer uma sociedade menos preconceituosa, menos hipócrita, ela quer abolir os costumes arraigados na ignorância.

Exaltação foi o primeiro livro de Bertha, publicado como romance em 1916. Entretanto, já havia sido publicado como folhetim no Jornal do Comércio e sido alvo da crítica. Fale mais sobre essa crítica. 

Albertina sempre foi respeitada no meio intelectual e literário da época. Grande parte da crítica foi positiva. Prova disso, como mencionei, foi o sucesso editorial do romance e a repercussão na imprensa periódica. Mesmo assim, é preciso estar atento à crítica formulada por escritores homens, pois muitas vezes espelham apenas a tradução polida de preconceitos de gênero. Lima Barreto, por exemplo, elogiava a erudição e inteligência da escritora e sua leitura refinada da filosofia, mas considerava-a com visão limitada pela falta de experiência de vida. Albertina vinha de uma família abastada e, ao contrário de Lima Barreto, não passou por privações materiais. Aqui, podemos nos questionar se esse tipo de argumento, que não deixa de estar correto, só era aplicado a uma mulher. Por outro lado, as mulheres conservadoras desejavam que o romance fosse parar nas fogueiras para não influenciar as meninas de família. Ou seja, grande parte da crítica só pode ser compreendida considerando as posições normativas das críticas ou as posições que ocupam na estrutura social. A obra literária, em si, fica em segundo plano para parte dos críticos. Mas, como sabemos, toda crítica só pode ser bem compreendida quando sabemos a posição que o crítico ocupa no campo literário e, eventualmente, as posições na topografia social.

A senhora acredita que existe espaço para o termo “literatura feminina” na historiografia da literatura brasileira?        

Não acredito nesse espaço. Acho prejudicial dar ênfase à escrita dirigida às mulheres em detrimento de todas as outras facetas de sua obra. O mais importante está justamente nos momentos em que essas escritoras conseguem abandonar tal orientação tipicamente esperada ou prescrita às escritoras daquela época. É uma vitória Albertina Bertha criar uma protagonista que prioriza os seus desejos, se entrega ao amor, numa época em que o casamento era arranjado pelas famílias. É uma vitória o fato de ela escrever sobre um tabu, que é o adultério feminino. A vitória é pequena pelo desfecho da obra, que é trágico. É interessante observar que o desfecho pode ser polissêmico, entendido como punição da mulher que tentou ir além dos limites sociais impostos em sua época, como rejeição por parte da mulher a esses limites ou mesmo como liberdade da protagonista, que vislumbra, em sua decisão radical, a fuga da sociedade moralista e hipócrita, bem como a resolução para a experiência do amor impossível.